Blog do Pedro Hauck

6 de janeiro de 2014

Sairecabur

Leia o relato anterior da expedição...

Começamos o ano subindo uma montanha, o Sairecabur de 6003 metros, que apesar de ser ligeiramente mais alto que o Licancabur, não é a montanha que mais se destaca na região de San Pedro de Atacama, pois vista de longe não apresenta um cone perfeito e estético como o outro vulcão.

Se acesso é facilitado por uma estrada de terra que nos leva até os 5500 metros de altitude, onde qualquer 4x4 pode chegar sem dificuldade senão a própria altitude. São cerca de 100 km de San Pedro que podem ser percorridos em cerca de 2 horas.

Não pernoitamos na montanha, fizemos o ataque acordando em nossa pousada em San Pedro, as 5 da manhã. O conforto de fazer isso é surreal, poder sentar pra comer e se arrumar em pé são coisas não muito comuns nas montanhas dos Andes.

Após percorrer o trecho de estrada, estacionamentos o carro na base da montanha aos 5500 metros, ao lado de uma casinha onde deve haver algum tipo de experimento, pois ali ao lado fica a enorme cratera do vulcão.  Seu cume rochoso, 500 metros acima, é uma parede da cratera que resistiu à explosão, que deformou o vulcão.

Começamos a caminhar às 9 horas. Sentia bem a altitude, com lerdeza para andar e uma certa sonolência. Fiquei para trás com o Luiz e o Luca abrindo caminho na trilha bem marcada. Foi assim até chegarmos aos 5700 metros, quando igualamos o ritmo e mais tarde passei a frente, até chegar numa encosta mais pronunciada onde há um "acarreo", que é um local onde há muitas rochas soltas e a subida é dificultada.

Ali o Luca começou a sentir a altitude. Deixamos sua mochila pra trás e continuamos subindo o acarreo. Mesmo sem mochila, Luca estava mostrando muitos sintomas de hipóxia, como lentidão, dor de cabeça e fala enrolada. Paramos para comer um energético, mas ele não se recuperou. O Luiz sugeriu se eu quisesse prosseguir. Ajudei um pouco mais a reanimar o guri, fazendo massagem na cabeça, mas foi ele melhorar para tomar a decisão mais prudente de descer junto com seu pai. Isso foi numa altitude de 5870 metros.

Sozinho continuei adiante, interpretando o caminho em meio ao caos de rochas, com blocos imensos que eram maiores que um carro. Não tive problema de navegação e rapidamente achei um bom caminho indo direto ao cume principal, onde cheguei por volta da uma da tarde.

No caminho fiquei pensando muito no meu amigo Parofes, que me deu as dicas da montanha e escalou o Saire alguns anos atrás. Ele está com Leucemia, numa luta que dura 2 anos já. Foi muito emocionante estar pensando nele e de repente perceber que estava no cume. Fiz uma homenagem a ele e espero que ele vença a doença como ele vencia as montanhas.

A descida foi rápida e antes das 15 horas já estava no carro com o Luiz e o Luca, que estava muito bom numa altitude menor. Havia perto um carro 4x4 atolado na areia, era de um casal de suíços. Ajudamos o casal a tirar o carro, mas o homem era muito barbeiro e foi somente desatolar para atolar novamente de uma maneira muito pior. O carro deles era um motor home adaptado e ficou muito perigoso deles tombarem o carro.

Tivemos que praticamente construir uma estrada para o carro sair de ré. Foi esgotante. Quem tirou o carro fui eu, pois eles dirigiam muito mal. No final, o casal me abraçou em agradecimento e queriam me pagar. Não aceitei. Se não fosse por nós, eles estariam fu.....

O Saire é uma montanha fácil, mas não dá pra se enganar: Andes é Andes. Aqui não tem toda a mordomia que tem nos Alpes e por mais que lá tenha uma boa estrada até a base, é sempre bom tomar cuidado e é sempre uma sorte achar alguém pra te ajudar.

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Sairecabur visto da base a 5500

Luiz e Luca no começa da trilha.

Trilha bem marcada no começo

Começo do acarreo

Subindo o acarreo, pouco ante da desistência de Luiz e Luca

Vista para o Licancacabur.

Vista para Laguna Verde na Bolívia

Homenagem ao Parofes no cume

Auto retrato no cume

Motorhome atolado dos suíços: Foi muito difícil tirar daí
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3 de janeiro de 2014

Acostumando com a altitude e dois pneus furados

Leia o relato anterior da expedição...

Antes de tentar uma grande montanha, é preciso acostumar-se com as condições da altitude, baixa pressão e pouco oxigênio, realizando um processo lento chamado de "aclimatação".

Em nosso plano original, pretendíamos nos aclimatar na região de San Antonio de Los Cobres, cerca de 140 km de Salta na Argentina. Digo original, pois ele acabou mudando.

Cruzamos o norte da Argentina, percorrendo a Ruta 16, que corta a região do Chaco, um local quente no verão e extremamente plano e monótono, onde a estratégia é passar por ali rápido. Desta maneira chegamos em Salta no sábado passado e fomos diretamente a San Antonio, subindo pela estrada que percorre o vale do rio Toro, onde no passado se desenvolveu uma civilização pré incaica grandiosa, a civilização Tastil.

Ruínas de Santa Rosa de Tastil



Estar em San Antonio é parte da aclimatação, pois a cidade fica numa altitude de 3800 metros, no entanto, apesar da facilidade de estar aclimatando num local urbano, lá não é o local mais agradável que existe. 

San Antonio é uma cidade indígena, como todas do altiplano. Aliás, lá é uma extensão da Bolívia e é uma região muito carente. Por isso, os atrativos são sempre fora da cidade, como por exemplo o viaduto La Polvorilla, onde passava o famoso "Trem a las Nubes". Por lá passa também a famosa Ruta 40, que corta os Andes argentinos de Norte a Sul, sendo que ali fica o ponto mais alto da estrada, a Abra del Acay, que chega a quase 4900 metros de altitude. É uma cidade que poderia ser o ponto de partida pra muitas montanhas, como o próprio Acay, o Quewar, Macon, Tuzgle, Chañi, Llullaillaco, Socompa e tantas e tantas outras... Mas não é, pois eles não sabem explorar bem os destinos montanhísticos da região, o que não é ruim, pois assim estas montanhas se preservam como locais selvagens e remotos.

San Antonio de los Cobres é Argentina, Bolívia ou Afeganistão??

Viaduto La Polvorilla com Luca e Luiz e nossa viatura!

Abra del Acay nevado.


Fizemos uma aclimatação visitando locais turísticos como a Abra del Acay e o viaduto. Num destes passeios notamos que o pneu estava vazio e paramos numa borracharia para consertar. Um dos parafusos da roda estava tão apertado que o borracheiro entortou nossa chave de roda, o que deixou o Luiz muito preocupado, pois ela ficou maleável, a um passo de quebrar se tivéssemos que trocar outra roda. Tentamos em vão comprar uma nova chave, mas em San Antonio não tinha...

Outro problema que enfrentamos em San Antonio foi o mau tempo. Parece improvável, mas estava chovendo naquele deserto, o que nas montanhas virava neve! Pegamos o Abra del Acay nestas condições e por conta disso tivemos que mudar nossos planos originais, que consistia em escalar o Quewar. Decidimos ir ao Macon... 

Para isso nos dirigimos à região mais remota da Puna, indo à direção à Tolar Grande, atravessando o deserto de altitude, junto à salares e muitos vulcões.

A estrada estava boa, toda de terra é claro! O local é super remoto e desolado, é um lugar de passagem somente, ninguém mora lá, ou melhor quase ninguém. Quando estávamos passando por um dos poucos locais habitados, o Salar de Pocitos, nosso pneu estourou! Ficamos com muito medo, pois estávamos com a chave de roda torta e não tinha quase ninguém no povoado por causa das festas de ano novo. Com sorte conseguimos uma chave nova, mas não outro pneu. 

 Lhamas em Santa Rosa de Pastos Grandes na Puna.

 Pneu estourado...

... no meio do nada

Por conta do pneu, decidimos ir ao Chile, pois em San Antonio não iriamos achar um. Então desistimos de ir ao Macon e fomos ao Paso de Sico atravessar a fronteira.

A estrada por lá é muito bonita, paramos diversas vezes para apreciar a paisagem, mas não dá pra se enganar, o deserto é perigoso e numa curva vimos o que nunca pode acontecer, bater o carro e ficar perdido por ali.

Não tivemos problemas em atravessar a fronteira, no lado chileno, há um posto avançado dos Carabineiros, que é a policia militar chilena. Quando paramos lá para fazer o controle e voltamos ao carro, percebemos que estávamos com outro pneu furado. Ou seja, estávamos na m....

De todos os problema o menor, pelo menos estávamos com os carabineiros e por sorte eles estavam indo para San Pedro com uma caminhonete. Aceitamos a carona e levamos nossos pneus para arrumar. São 150 km de onde estávamos para a cidade, mesmo não tão longe, o local que estávamos era bem remoto.

No meio do caminho os militares nos avisou que iriam parar apara ajudar um carro com "pane". Após um certo tempo, quando estávamos passando pelo salar Aguas Calientes, vimos um sujeito correndo como louco com os braços para o alto. Fomos em sua direção e era o dono do carro em pane, que na verdade não tinha acontecido nenhuma pane, ele simplesmente chegou muito perto do salar e atolou o carro. 

Quando abrimos a janela para perguntar o que havia acontecido, percebi que ele era brasileiro. Seu nome, Ricardo Rapozo, um verdadeiro figura. Não tivemos dificuldades em desatolar seu carro, claro, ajudados com o 4x4 dos Carabineiros. 

Voltei dirigindo o carro do Ricardo, um Nissan alugado no Chile, foi bem engraçado, um cara intelectualizado com muita experiencia de vida bacana, com o qual me identifiquei bastante. Foi uma conversa bem agradável até San Pedro, onde chegamos a tempo de curtir a virada do ano.

Nos hospedamos num hotel bem simples, pra não dizer outra coisa, onde Ricardo estava e fomos para a rua principal da cidade procurar um restaurante para passar a virada. É minha segunda vez nessa cidade. Que contraste o deserto da Puna com San Pedro e seus restaurantes descolados, com gente de todo mundo, gente bonita, bem vestida... e lá em cima aquela solidão e desolamento. Foi meu segundo reveillon seguido o deserto.


 O deserto é lugar de passagem. A gente passa, um pouco dele fica na gente e um pouco da gente fica nele.


 Paisagem vulcânica no Paso de Sico

 Segundo pneu furado no dia.

 Salar no meio do caminho.

Paisagem ao pôr do sol....

 Ricardo e Luiz no Reveillon


 Comida surreal para quem estava perdido no deserto....


 San Pedro cada vez mais descolada... Surreal


 Queimar as coisas ruins, tradição do reveillon chileno


Luca, Luiz, Ricardo e eu em San Pedro. Feliz año!!!!

26 de dezembro de 2013

Água falsa dos Incas

Na estrada outra vez.... mais uma vez o destino é a cordilheira dos Andes, a região alta e seca da Puna do Atacama, onde o branco da montanha é sal e água é de mentira.

Estou acompanhado de Luiz Antoniutti e seu filho Luca, de 15 anos. Será uma viagem interessante, pois na minha idade (situação) ora sinto-me como o pai, ora sinto-me na idade do filho.

Nosso destino é a Província de Salta, noroeste argentino. Almejamos escalar o Llullallaico, montanha com 6740 metros que é a sétima mais alta do continente. É uma montanha grande e especial. Ela foi escalada pela primeira vez pelos Incas, há 5 séculos atrás. 

Diferente de nós, os Incas escalavam pela religião e por seus deuses eles sacrificaram 3 meninas que permaneceram por lá por todo este tempo, mumificadas. Hoje elas estão no Museu Arqueológico de Alta Montanha de Salta e o Llullallaico, por isso, é considerado o sitio arqueológico mais alto do mundo.

Não temos muito tempo, mas temos muita experiência. Será uma expedição otimizada, pequena e objetiva. Sairemos daqui a pouco a bordo de uma Mitsubishi 4x4 para a primeira parte da viagem: percorrer 2000 Km até a cidade de Salta.

As atualizações serão escassas. A internet por lá é lenta e difícil de achar. Desta vez irei munido de um smartphone, para fazer vídeo logs que serão, quando possível, publicadas na minha página do Facebook: http://www.facebook.com/pedro.hauck

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Puna do Atacama e o Llullallaico (montanha mais alta no centro da foto) visto desde a estrada para o Antofalla. Foto tirada em Dezembro de 2012 durante a expedição Mundo Andino.

:: Leia todos os relatos da Expedição Água Falsa dos Incas....
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30 de novembro de 2013

Participação no Programa Na Mochila

Nesta semana tive o prazer de participar do Programa Na Mochila, que é um tipo de talk show de montanhismo transmitido ao vivo por streaming pela internet com a participação de ouvintes. Trata-se de um programa totalmente independente idealizado e tocado pelo Rael Dill e Papael Kozechen.

Como gosto de falar, o programa acabou indo além do tempo previsto, com uma extensão de meia horinha a mais. Dentre os diversos papos, tive a oportunidade de comentar e dar minha opinião sobre vários assuntos polêmicos da atualidade, como a desfiliação da CBME junto à IFSC, o problema das proibições e os parques fortaleza, a nova lei de acesso a sitios naturais no Rio de Janeiro e outros assuntos.

O programa foi gravado e encontra-se disponível na íntegra, divididos em duas partes:

Parte 1: http://www.ustream.tv/recorded/41142378
Parte 2: http://www.ustream.tv/recorded/41143487


Estúdios do Programa Na Mochila, Rael e Papael.

29 de novembro de 2013

Tom e Ana estudam Geologia

O mais novo simpático (quase) casal de montanhistas Tom e Ana são estudantes de Geologia. Criação do arquiteto e montanhista Rodrigo Trevisan, Tom e Ana são personagens de quadrinho que fogem totalmente do padrão normal de quadrinhos e produções deste tipo voltadas para o publico de montanha.

Enquanto diversos outros quadrinhos retratavam montanhistas como pessoas desleixadas, com gostos duvidosos, chapados, destemidos e anti sociais, Tom e Ana é o retrato de dois jovens quase normais, meio inocentes, que apresentam singela admiração pela natureza, vida simples e uma grande timidez para mostrar que um gosta muito do outro.

Claro que como todo montanhista, Tom é meio jaguara, anda de bota na praia no Leblon, prestando mais atenção nas formações rochosas que o cerca do que nas cariocas de biquíni, parece eu. Ele também esquece de ver o prazo de validade, prepara, oferece e come atum vencido com a Ana, que é uma moça moderna e bonita que vive com seu celular a punho registrando tudo o que faz e que aprende com o Tom.

Eles viajam bastante. Uma hora estão nos canyons da Serra Geral no Rio Grande do Sul, outra na Serra do Mar em Santa Catarina e Paraná, passam pela Serra dos Órgãos e ainda escalam um imponente 6 mil na Bolívia. A gente vai viajando junto, nas imagens, nas histórias e na imaginação sobre o que vai acontecer...