Blog do Pedro Hauck

18 de dezembro de 2008

GPS na montanha



O GPS é uma ferramenta de localização e navegação que revolucionou as atividades ao ar livre. Entretanto no meio montanhístico muito gente torce o nariz para o aparelhinho. São várias as acusações. Vou falar o que eu penso sobre o assunto.

Até pouquissimo tempo atrás, os aparelhos de GPS eram caríssimos e uma porcaria. Consumiam muita pilha, não funcionavam dentro de mata fechada e eram muito imprecisos. Entretanto, de dois anos para cá, com a chegada da nova geração de aparelhos tudo isso mudou e hoje podemos comprar aparelhos muito melhores e mais baratos comparado com o que era.

Hoje, com 800 reais pode-se comprar um GPS que pega dentro de uma floresta com precisão de até 10 metros (até 3 em locais abertos!), com autonomia de 15 horas com apenas duas pilhas AA, ou seja, os novos aparelhos de GPS se adaptaram à realidade das montanhas brasileiras e dos brasileiros.

Mesmo assim muita gente odeia estes aparelhinhos tão práticos e interessantes para quem faz montanha. Vou citar os argumentos mais comuns, falados pela turma anti-tecnologia e o que eu acho deles. É minha opinião pessoal baseada em minhas experiências. Quem discordar que argumente comentando esta coluna.

Fim da Aventura?

Dizem que com o GPS não há mais aventura, pois ele facilita muito a navegação. Concordo parcialmente com este argumento, pois ele de fato facilita a navegação. Entretanto, de maneira alguma, a trilha ou escalada vai ser nem mais nem menos interessante só por que você tem um GPS. Trilhas por si já são muito mais apelativas do que possuir um GPS, pois eles são demarcadas, ora por seu traçado, ora por fitas, em locais onde a mata é muito fechada.

Não vou falar sobre trilhas com traçado definido, pois nelas ter o GPS é um luxo apenas para saber onde você está e quanto tempo falta para terminar, vou direto no ponto: As trilhas fechadas.

Na minha opinião andar com um GPS em uma trilha fechada na floresta não é mais fácil do que sem, pois neste caso não há trilha real, o que significa que você terá que interpretar a paisagem e procurar nela um melhor local para se locomover. Isso acontece por que nestes ambientes fechados a natureza é muito estática e de tempos em tempos tudo por lá muda. É o caso da Serra do Mar do Paraná, onde uma árvore caindo pode confundir toda uma trilha fechada, o que faz com que a interpretação seja sempre essencial.

Neste mesmo caso, o que facilita mais: Ter uma trilha demarcada no GPS, ou ter a trilha demarcada com fitas? Para quem nunca foi ao local, certamente as fitas, pois é uma prova real de alguém esteve lá e demarcou o local que passou. No GPS sabemos que estamos indo para o local correto, mas não da mesma maneira que a pessoa que demarcou no tracklog, pois por mais que o sistema tenha avançado, em mata fechada estes 10 metros de erro te deixa fora da trilha.

Em seguida, em minha opinião, eu acho que este argumento é inválido pois o desafio do montanhismo continua existindo, que é subir a montanha. O GPS não sobe para você e nem irá deixar a trilha mais curta.

O GPS permite que pessoas despreparadas vão para a montanha, aumentando o afluxo de pessoas?

Este é um argumento também acho que não faz sentido, primeiramente é dificil de se comprovar se desde que o GPS foi popularizado houve ou não um maior afluxo de pessoas nas montanhas, pois não há pesquisas sobre isso.

Por minha experiência dentro do maior clube de montanhismo do Estado do Paraná e de de 10 anos de montanhas, é muito raro, ainda, encontrar alguém em uma trilha com um aparelhinho.

Não vejo problemas que pessoas sem preparo e sem experiência usem um GPS na montanha, vejo até algo positivo, pois se algo der errado com estas pessoas, eles poderam retornar sem precisar de mobilizar uma equipe de resgate para encontrá-los perdidos no mato. Pessoas que sofrerem algum acidente, poderão dizer a coordenada em que se encontram e facilitar muito a equipe de socorro. Não acho que isso seja o fim de uma aventura, pois os riscos são os mesmo, o que muda é no caso de uma emergência, o socorro chegará mais rápido. Este é um ponto muito positivo no sistema, o aumento da segurança.

GPS como segurança

Certa vez, escalando o Vulcão Incahuasi na Argentina, que é um dos maiores do mundo, fui surpreendido por uma tormenta de neve que produziu um terrivel "white out" quando eu estava perto do cume. Se não fosse pelo GPS, eu teria descido pelo lado errado da montanha e poderia ter me dado muito mal.

Esta é uma das função mais interessantes do aparelho, usar o Trackback, que é voltar pelo mesmo caminho que você foi. Imagine a situação que eu vivi naquele momento, cansado, com frio e perdido. Não é à toa que gosto tanto de meu GPS.

Muita gente pode não concordar com isso, mas aumentar a segurança não significa o fim do risco e nem o fim da aventura. Esta não foi a única vez que o GPS me ajudou, mas foi a vez em que me livrei da situação mais perigosa. Só é contra o sistema para uso em caso de segurança quem nunca viveu uma situação de aventura extrema. E quem não viveu uma aventura extrema como pode falar de fim de aventura?

Objetividade

Muitas vezes a aproximação é um detalhe da escalada. Navegar por uma trilha desconhecida pode levar tempo e um tempo precioso para quem vai fazer uma escalada técnica onde é preciso ser rápido. Saber onde fica a base da via e os rapéis ajuda muito nestes casos. O GPS te diz onde estão estes lugares de maneira muito mais objetiva, mas não te põe no cume da montanha.

Mapeamento

Um coisa muito interessante é que depois que você chegou em casa poderá saber onde esteve na montanha. A confecção de mapas é uma possibilidade com o GPS e isso não significa que vai incentivar que mais pessoas vão para a montanha, pois os melhores mapas já existem há muito tempo: As cartas topográficas.

Eu não acredito que a sobreposição de um tracklog com uma imagem do Google vai influenciar pessoas não montanhistas de irem à montanha, pois não é mapa que leva as pessoas à montanha, mas sim a vontade e o espirito de aventura.

O que mais incentiva alguém em subir uma montanha não é ver ela pelo computador, senão não estaríamos discutindo em lista pública a decadência da escalada no Brasil, mas sim a própria experiência em ver as montanhas de baixo e sonhar em um dia estar lá em cima.

Por fim acredito que o GPS só veio à contribuir com o montanhismo, da mesma maneira que a invenção de sapatilhas para a escalada esportivas, dos Camalots, para escalada tradicional, das cadeirinhas, dos anoraks de Gore-tex, dos fogareiros, etc, etc, etc.

Isso sem falar que com a ajuda de um GPS, escaladas em estilo alpino se tornam mais atrativas, pois nelas precisamos de objetividade e uma margem de segurança, para no caso de um resgate. O GPS contribui muito com isso, possibilitando um avanço técnico na escalada e não um retrocesso.

Hoje com todos os avanços tecnológicos, com equipamentos leves, compactos e com mais segurança, a escalada em estilo alpino avançou bastante, isso sim está comprovado! Não é a era em que a farofada consegue as informações para "invadir" a montanha, mas sim a era da escalada técnica, por sua conta e risco e com muita aventura.

Veja mais:

Tudo sobre GPS - Artigo completo sobre GPS de minha autoria no Gentedemontanha.com
Arquivos de GPS - Banco de dados com algumas trilhas para GPS Garmin de Tacio Philip

Eportateis - Loja virtual com GPS a preços acessíveis.

Marcação de GPS sobreposto ao google Earth. Aconcagua.

O Huayna Potosi na Bolívia

A trilha do Pico Paraná

Região da Face Sul do Mercedário, Cerro Negro e Ramada

Trekking mais longo que eu já fiz em alta montanha: Cerro Tupungato.

16 de dezembro de 2008

O Montanhismo no Қазақстан (Cazaquistão)

Recentemente escrevi este artigo para o site Altamontanha.com. Vou reproduzi-lo aqui.

Cazaquistão é um dos maiores países do mundo, mas é pouco conhecido. Ele se desmembrou da União Soviética em 1991 e herdou deste desconfigurado país muito mais do que ogivas nucleares e instalações militares, herdou também o gosto pelo montanhismo.

A República do Cazaquistão (Қазақстан Республикасы) é um país imenso, mas pouco populoso, localizado na Ásia Central. Seu território estende-se, de oeste para leste, do mar Cáspio às montanhas Altai, e, de norte a sul, das planícies da Sibéria Ocidental aos oásis e desertos da Ásia Central. A estepe cazaque, com uma área de cerca de 804.500 quilômetros quadrados, ocupa um terço do país e é a maior região seca de estepe do mundo.

Apesar de ser um país onde o relevo é predominantemente plano, sua população se concentra nas proximidades da cordilheira de Tian Shan, onde fica a maior cidade, Almaty, com mais de 1 milhão de habitantes, onde nasceu o montanhismo no país.

O montanhismo no Cazaquistão nasceu em 17 de Julho de 1930. Neste dia, G. Beloglazov e V. Gorbunov de Almaty e A. Misovskiy de Moscou fizeram a ascensão do Pico Maloalmatinskiy de 4376 metros. Mais tarde esta montanha foi renomeada, como Pico Komsomol, algo normal na época soviética mudar o nome dos lugares para alegrar as elites russas.

As expedição casaques de grande peso iniciaram tarde, somente em 1982, com a bandeira soviética. Neste ano, cinco montanhistas do Cazaquistão, K. Valiyev, V. Hrischatiy, Y. Golodov, E. Ilyinskiy e S. Chepchev participaram de uma expedição ao Everest. Com grande dificuldades metereológicas, K. Valiyev e V. Hrischatiy chegaram ao ponto mais alto do planeta. Mais tarde, Y. Golodov, E. Ilyinskiy e S. Chepchev tentaram cume sem sucesso, tendo atingido uma altitude de 8550 metros. Foi o triunfo do montanhismo cazaque. Todos os participantes foram premiados pelo governo soviético.

A segunda expedição cazaque ao Himalaia foi no ano de 1989 no Kanchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo localizada entre a Índia e o Nepal. Nesta expedição participaram nove cazaques que não fizeram cume na montanha, que é considerada uma das mais difíceis do mundo.

Na primavera de 1991, montanhistas cazaques realizaram a terceira expedição do país ao Himalaia. Eles escalaram o Dhaulagiri de 8167 metros pelo lado Oeste, foi a primeira ascensão por esta face da montanha. Nesta oportunidade, o experiente montanhista E. Ilyinskiy foi o lider da equipe composta por 13 montanhistas, dentre ele Anatoli Bukreev, talvez o mais famoso alpinista cazaque até hoje.

Mais tarde, em 1995, com o país já independente da extinta União Soviética, montanhistas cazaques liderados por K. Valiyev, o primeiro cazaque a escalar o Everest, escalaram o Manaslu no inverno sem oxigênio. Fizeram cume na montanha M. Mikhalkov e D. Grekov.

Em 1996 o montanhista cazaque Anatoli Bukreev se tornou mundialmente conhecido por ter sido herói/vilão no acidente no Everest que matou 12 pessoas e que foi reportado no Best seller de autoria do americano Jon Krakauer: No ar Rarefeito.

Bukreev fez o cume do Everest sem oxigênio e também foi resgatar as vitimas desta maneira para não atrapalhar seu plano em escalar todas as montanhas acima de 8 mil metros com este estilo. Por conta disso, Krakauer diz que ele poderia ter ajudado mais pessoas e o numero de vítimas teria sido menor.

Bukreev escreveu o livro: A escalada em co-autoria com W. Dewalt rebatendo as criticas de Krakauer. Bukreev morreu um ano depois quando tentava escalar no inverno a face sul do Anapurnna com o italiano Simone Moro. Ele foi pego por uma avalanche. Seria a oitava montanha acima de 8 mil metros para Bukreev, todas sem oxigênio.

Em 2001 foi inaugurado um programa governamental no Cazaquistão para formar um time de montanhistas para escalar as montanhas mais altas do mundo. Foram estas expedições e montanhistas que participaram desta equipe:

  • Expedição ao Hidden Peak (8068m), 2001: E. Ilyinskiy - o lider, Vasily Litvinov, Damir Molgachev, Vasily Pivtsov, Denis Urubko, Sergey Lavrov, Alexey Raspopov, Maxut Zhumayev.
  • Expedição ao Gasherbrum (8035m), 2001: E. Ilyinskiy - the leader, Vasily Litvinov, Damir Molgachev, Vasily Pivtsov, Denis Urubko, Sergey Lavrov, Alexey Raspopov, Maxut Zhumayev.
  • Expedição ao Kangchenjunga (8586 m), 2002: E. Ilyinskiy, Denis Urubko, Sergey Brodsky, Damir Molgachev, Vasily Pivtsov, Sergey Lavrov, Alexey Raspopov, Maxut Zhumayev
  • Expedição ao Shisha Pangma (8046m), 2002: E. Ilyinskiy - o lider, Maxut Zhumayev, Denis Urubko, Alexey Raspopov, Vassily Pivtsov
  • Expedição ao Nanga Parbat em 2003: B. Zhunusov - o lider, E. Ilyinskiy, M. Zhumaev, D. Urubko, A. Raspopov, V. Pivtsov, S. Lavrov, V. Litvinov, D. Molgachev, D. Chumakov
  • Expedição ao Broad Peak em 2003: B. Zhunusov - líder, E. Ilyinskiy, M. Zhumaev, D. Urubko, A. Raspopov, V. Pivtsov, S. Lavrov, V. Litvinov, D. Molgachev, D. Chumakov


De todos estes nomes, talvez o montanhista que mais tenha se destacado e hoje é reconhecido internacionalmente é Denis Urubko, quem irá neste inverno desafiar a última montanha de 8 mil ainda não escalada nesta época do ano, o Makalu.

Urubko terá a companhia de ninguém mais, ninguém menos que Simone Moro, alpinista italiano que era companheiro de Bukreev há 11 anos atrás, quando também em um inverno, o cazaque mais famoso do mundo veio a falecer. Tomare que o destino seja diferente com ele desta vez.

Mapa do Cazaquistão

Panorâma da Cordilheira de Tian Shian.

Khan Tengri, montanha mais alta do Cazaquistão com 7010 metros.

Anatoli Bukreev, na esquerda, com a bandeira do Cazaquistão no cume de uma montanha no Himalaia.

Denis Urubko


Escaladora treinando em ginásio em Almaty

Escaladores na rocha no Cazaquistão.

14 de dezembro de 2008

Hamburguer agora é subway!

São Luiz do Purunã é um dos lugares que mais gosto de escalar e na minha opinião é o diferencial que o Paraná tem a oferer quando o assunto é escalada esportiva.

Ontem estive no setor 1, que é o mais popular, onde pude matar a saudades de algumas das vias mais lindas do local, como a Pink Floyd, Ilusão de ótica, Sangue, Via do tetinho, Bocó e também pude escalar pela primeira vez uma via que achei maravilhosa, a Tome Leite, um 7b difícil com dois tetos alucinantes e movimentos de muita força e técnica.

Depois de escalar tudo isso com meus amigos Hilton, Otaviano, Juliano, Karla, Eliza, Atibaia e Ronaldo, de saideira, fui tentar a então Hamburguer, um 7b negativo de resistência.

Entrei na via e empaquei no crux. Tentava, tentava, mas estava muito estranho. Eu escalava esta via com relativa facilidade, inclusive nem achava que ela fosse um 7b, mas ontem a via estava muito estranha e não lembrava como eu fazia antes para passar aquele crux.

Alguns outros amigos vieram mais tarde e ficaram olhando minha perrengue, foi aí que eu descobri que a agarra chave da Hamburguer tinha caído e agora ela não é mais um 7b.

Com esta mudança, para se passar o crux é preciso dar um dinâmico para alcançar uma agarra abaolada acima da chapeleta, que não dá pra proteger de baixo. Eu, que tenho uma estatura mais baixa, tenho que dar um bote para alcançar esta agarra, que não é lá das melhores. Resultado: Não fiz a via... por enquanto!

Uma das dificuldades do novo crux ficou a grampeação, pois você precisa dar o bote e pegar uma agarra acima da chapeleta. Se errar, vai levar uma queda enorme, chegando na altura da primeira ou segunda proteção... Ou seja, além e um desafio técnico, a nova Hamburguer tem um desafio psicológico muito forte.

O Snakinho, que deu os betas da nova via e me avisou da queda da agarra, tá achando que a via agora é um 7c difícil e tá sugirindo que a via tenha agora um novo nome, já que está bem diferente do que era. A sugestão é "Subway" por que agora quem for tentar a via não pode ter gordura... Veja como ficou nas fotos:

Panorâma da Subway: O drama!

Tentando o bote: + ou - uns 1,20 mts!

Distância da próxima proteção

11 de dezembro de 2008

Retrocesso na Escalada: Comentários

Gostaria de agradecer as pessoas que leram minha coluna do site Altamontanha.com e colocaram suas opiniões.

Acho que uma discussão de toda a comunidade escaladora é muito importante neste momento e vou embasar meus argumentos, complementando o texto e replicando alguns comentários.

Para começar, vou justificar porque eu utilizei a palavra retrocesso ao invés de decadência em meu texto. Retrocesso é o ato de retornar ao estado anterior, enquanto que decadência é o declínio ou enfraquecimento de algo. Através desta simples explicação justifico que o fechamento da Casa de Pedra e de outros 5 ginásios de escalada no Estado de São Paulo representa claramente um retrocesso.

A questão é o que acontece depois de um retrocesso. Geralmente uma crise e crises podem resultar em decadência, ou superação.

Este assunto sobre o retrocesso, crise e decadência na escalada já foi discutido por mim outras vezes:

25/05/2008: Uma crise no montanhismo e escalada.
24/07/2008: Reflexões sobre os velhos problemas nas montanhas.
16/09/2008: Pessoas Físicas na Fepam
21/10/2008: Parques Proibidos

Vários fatores aconteceram para que esta crise viesse a abater a escalada brasileira. Eu não sei qual deste fatores teve o papel mais forte nisso tudo que aconteceu, mas não é preciso ser um gênio para perceber estes problemas...

Primeiramente, como eu disse no texto, a escalada, assim como qualquer atividade é passivel de se transformar em uma moda e atrair muitos adeptos que depois de um tempo migram para outra atividade e isso aconteceu com certeza, ainda mais dentro dos ginásios que apresentam uma grande comodidade e facilidade para as pessoas começarem.

Em seguida, temos outros problemas com a escalada muito graves que foram as proibições e restrições. Realizamos nossas atividades em áreas naturais e elas sofrem de problemas de degradação. A escalada em si não é muito impactante, mas nossos orgãos ambientais não vão trabalhar ao nosso favor para provar isso. A atitude de proibir antes de conhecer foi algo tomado em quase todas as unidades de conservação no Brasil. Em muitos casos travamos grande lutas e quedas de braço e conseguimos algum progresso, mas em muitos lugares que são importantíssimos para a escalada, como a Lapinha em Minas, essa briga ainda teve resultados para nós.

A proibição da escalada é um retrocesso em nossa atividade, pois além de sermos impedidos de fazer aquilo que nos propomos, ainda somos marginalizados diante da sociedade.

Em seguida, há a questão da falta de educação de muitos escaladores. Gente que não sabe respeitar a cultura dos locais onde tem escalada. Saibam que muitos dos locais onde proprietários proibiram a escalada foi por este motivo, embora existam também muitos proprietários sacanas e ignorantes. Entretanto, fumar "um" dentro da propriedade dos outros, fazer bagunça, barulho, jogar lixo no chão, estragar plantações e largar porteiras abertas para o gado fugir são irresponsabilidades nossas que voltaram mais tarde contra nós através das proibição particulares.

O problema da falta de educação é um ato de auto-boicote, pois com o mal comportamento e a falta jogo de cintura, os próprios escaladores acabam por contribuir para sua própria marginalização.

Há ainda o problema da falta de incentivo. A escalada precisa de constantes renovações, pois alguns param e outros começam a escalar. Este é um problema grande, pois há uma falta de incentivo para que apareçam novos escaladores.

Para começar, o preço dos equipamentos assustam muitos pretendentes a serem escaladores, mas isso sempre foi assim. Quem não tem grana pra escalar tem que se virar, seja comprando equipo usado, ou comprando coletivamente e aos pouquinhos. O que não contribui, e muito, com a pouca renovação são os próprios escaladores mais experiêntes, pois infelizmente nosso meio tem muita gente arrogante que se sente superior à outras pessoas e não é incomum ver um escalador se achar melhor do que outro só por que escala melhor e por isso julga o principiante de "mané" "farofa" e outros adjetivos negativos.

A escalada ocorre sempre entre amigos ou grupos pequenos. É uma relação de confiança e amizade, mas a individualização excessiva também contribuiu com a não renovação da escalada, pois grupos fechados muitas vezes não permitem que novas pessoas se formem como escaladores. A individualização e a falta de compromisso com a escalada tira as pessoas de clubes e associações que históricamente desempenham o papel de formar novos escaladores. Sem pessoas experientes nos clubes de montanha, não há o desenvolvimento do montanhismo em sua forma mais técnica, a escalada.

A falta de comprometimente não é responsabilidade apenas de escaladores e montanhistas experientes e egocêntricos, mas também dos próprios empresários do meio da escalada. Muitos reclamam que o meio não dá dinheiro. Dinheiro é algo importante, pois ninguém vive de filantropia, entretanto estes empresários tem que pensar que apoio e patrocinio é investimento. Você gasta dinheiro em um atleta com projeto interessante e depois tem seu retorno em divulgação.

As marcas de montanha, foram aos poucos deixando de patrocinar eventos e atletas de escalada e sem este investimento, acabou-se a renovação, divulgação, etc. Hoje, nem mesmo os campeões brasileiros de escalada, Janine e Cesinha tem patrocínios, assim como o montanhista brasileiro mais experiente, Waldemar Niclevicz não tem para escalar montanhas no Himalaia e nem mesmo o site Altamontanha tem para divulgar gratuitamente a cultura da montanha na internet, vide que nele não há anuncios de marcas, apenas do Google.

Sem dinheiro, não é possivel organizar campeonatos de escalada profissionais. Embora termos grandes talentos individuais de atletas que treinam e se dedicam como profissionais, nossos campeonatos não são profissionais, pois só são realizados na boa vontade de alguns voluntários. Se conseguimos alguns patrocínios, eles bancam apenas as despesas operacionais de um evento, mas a premiação de nossos campeões continuam sendo injustas. Sabe quanto o Cesinha ganhou quando ele levou a etapa curitibana do brasileiro este ano? R$ 250,00. Por mais que exista boa vontade e trabalho de muita gente para conseguir esta premiação, temos que concordar que isso não é suficiente e algo falhou para que nossos campeonatos não fossem mais atrativos.

Falo de campeonato pois eles são importantes, pois são um cartão de visitas da escalada, pois é aí que está a parte que deveria ser mais lucrativa da escalada. Campeonatos têm público, tem apelo na mídia, são emocionantes e causam grande impacto. Se você faz um campeonato que tem visualização, haverá certamente retorno para os patrocinadores. Só para comparar, quanto não deve ter custado para os organizadores construirem aquela mega-rampa em São Paulo para o skatista Bob Burnquist voar no meio do sambódromo? Muito dinheiro! Mas mesmo assim teve muito retorno e por mais que o skate seja muito mais conhecido e praticado do que a escalada, quantas pessoas daquele público enorme iriam saltar da mega-rampa? É a mesma coisa na escalada, nem sempre quem está assistindo vai escalar, mas aquilo irá chamar a atenção das pessoas certamente e isso voltará em divulgação ao escalador.

É neste momento de crise que vamos sentir se a escalada irá se recuparar e contornar a situação, ou, se nada mudar, sofrer com a decadência... Só nosso comportamento irá dizer o futuro, o caminho é esse e pra começar é preciso reconstruir o que perdemos.

10 de dezembro de 2008

Meus textos fazendo sucesso lá fora!

Recentemente comecei a escrever um blog em espanhol dentro do porta de escalada Barrabés, tendo como tema a escalada no Brasil (http://red.barrabes.com/pedrohauck/).

O blog foi muito bem recebido, elogiado, mas não esperava que ele iria se tornar uma dos mais populares do portal, com mais visitas do que este, em minha língua mãe.

Meu blog na Barrabés tem apenas 5 postagens, por enquanto! Ao contrário deste com mais de 100 em dois anos de atividade. Lá, minhas postagens são bem simples, apenas falei sobre alguns lugares e coloquei algumas fotos.

O sucesso deste blog, no entanto, se deve com certeza ao grande interesse dos estrangeiros em querer conhecer e escalar no Brasil. Recebi alguns emails de pessoas que se diziam surpresas, pois não achavam que aqui havia escalada e muito menos uma cultura da montanha bem sedimentada.

Fica então uma lição para as autoridades que insistem em ignorar a escalada como uma atividade em ambientes naturais, nos proibindo de escalar em parques e desenvolvendo um tipo de turismo ecológico meramente contemplativo, enquanto que a escalada é uma atividade que te põe em contato com a natureza sem causar grandes impactos.

A escalada, se bem planejada, poderia se transformar em uma fonte de renda em locais de economia pouco desenvolvida, como na Lapinha em Minas e outros lugares, se existisse uma politica de incentivo à este tipo de turismo ecológico.

Por conta deste blog, estou em contato com muita gente de fora e já publiquei um texto, com convite para outros, no portal Argentino de escaladas "Argentina Climb".


Sobre a crise na escalada

Hoje publiquei em minha coluna no Altamontanha uma matéria sobre o retrocesso que a escalada brasileira vem enfrentando. Nela, comento com tristeza a notícia do fechamento da Casa de Pedra de Perdizes, o maior ginásio de escalada de São Paulo.

Em várias ocasiões eu ralatei uma "crise" em nosso meio. Minha percepção sobre este declinio veio de minha experiência em ver os picos de escalada vazios nos fins de semana, ver lojas fechando, pouca participação nas listas e nos sites de montanhas e campeonatos vazios, isso sem falar em escaladores e montanhistas de nome e competência sem conseguir patrocinios para seus projetos.

Ao meu ver, apenas complementando o que escrevi no Altamontanha, foram vários fatores que levaram à esta crise, desde o declinio da "moda" da escalada, passando pelas proibições de se escalar em parques e propriedades privadas e chegando ao alto custo da atividade. Resumindo, ninguém vai pagar caro pra não poder escalar e não haver uma valorização da atividade. Aliás, incidentes como o fechamento de points de escalada, a destruição do muro público do viaduto de Florianópolis e a falta de apoio institucional mostram que a escalada vive uma fase infeliz.

Apenas espero que os escaladores que continuam que não fiquem retraídos em seus cantinhos. Peço que participem mais, vão aos campeonatos, mesmo que não tenham chances de vencer, que vão às festas, aos eventos, participem dos clubes... Se não ajudarmos uns aos outros, a escalada irá morrer com a gente, pois o que a minha geração não conseguiu fazer até agora foi passar seu conhecimento à frente, daí a falta de renovação que está se voltando contra nós.

Eu, em flagrante, realizando atividades ilícitas. Enquanto a escalada não deixar de ser tratada como atividade marginal, só o que podemos esperar é uma decadência.