Blog do Pedro Hauck: Serra da Farinha Seca
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26 de maio de 2012

Sementes de Caratuva

Nos campos de altitude, a espécie de planta que os montanhistas mais se identificam é certamente a Chusquea pinifolia, vulgo Caratuva. São vários motivos pra isso, o primeiro é que ela é abundante, o segundo é que ela só aparece em cumes altos, terceiro é um bambuzinho simpático e bastante firme que ajuda muita gente a se equilibrar e subir trilhas íngremes e quarto é que é nome de montanha e foi emprestado para o nome de uma marca de mochila antiga que hoje só é usada por alguns tiozões do tipo Julio Fiori.

Como falei, a Caratuva é um tipo de bambuzinho, mas ela gosta de sol, é portanto uma espécie heliófita. A razão dela apenas existir em cumes mais altos, é que nos mais baixos geralmente são locais onde as chuvas são mais constantes (chuvas orográficas), a umidade constante ajuda na evolução dos solos e na sucessão da vegetação campestre para vegetação florestal. Nestes locais, predominam a chamada florestinha nebular, chamada pelos naturalistas de Floresta Ombrófila Densa Altomontana. A Matinha nebular faz sombra sobre espécies rasteiras como é o caso da Caratuva e por conta disso, nosso simpático bambuzinho deixa de existir.

Existe toda uma discussão sobre as origens dos campos de altitude. Como eles foram parar lá, qual será seu destino e como é sua dinâmica. Naturalistas que estudam a natureza a partir de um ponto de vista evolutivo  (história natural) tendem a estudar o passado, através de técnicas de paleo palinologia. Estes estudos afirmam que no passado, na era das glaciações, as montanhas do Sul e do Sudeste eram todas recobertas por estes campos. No Paraná, é provável que os campos da Serra do Mar e os Campos Gerais eram unidos. A região do primeiro Planalto, onde fica Curitiba, era toda composta de campos, tendo apenas alguns capões de Floresta de Araucária em vales protegidos e mais úmidos. Esta é a hipótese que eu defendo e que está publicada em minha dissertação de mestrado e em vários artigos científicos de minha autoria.

Com o fim da glaciação, as temperaturas aumentaram e as chuvas também. O clima ficou mais propenso para a expansão das araucárias, que estavam refugiadas no vale do rio Iguaçu, onde hoje fica o Parque Nacional do Iguaçu em Foz. Os indícios para isso são inúmeros, o próprio Reinhard Maack, em seu famoso mapa fitogeográfico do Estado do Paraná classificou aquela floresta em 1950 como sendo uma mata tropical/subtropical com Lianas (cipós), Syagrus (palmeira Gerivá) - as duas espécies típicas de Floresta Estacional, a mata tropical do interior e Araucaria, advinda do refúgio de Iguaçu. Ou seja, a atual floresta teria se tropicalizado nos últimos 10 mil anos (não copiem, isso é trecho da minha dissertação - SILVA 2009 - referência abaixo).

Diversas pessoas puderam ao longo de poucos anos notar que os campos de altitude na Serra do Mar estão se retraindo em detrimento das matinhas nebulares. Este seria o destino de nossos lindos campos, a extinção, uma extinção natural por conta da manutenção de um clima desfavorável à sua presença. Mas, se analisarmos bem, 10 mil anos se passaram desde o fim da Glaciação e eles ainda estão lá. É exatamente esta a polêmica em que naturistas sistêmicos e os de história natural se divergem. O primeiro afirma que os campos estão ali por uma questão pedológica, ou seja, estão preservados porque as matas não avançam sobres solos rasos e frágeis onde estão situados. Os segundos afirmam que os campos se mantiveram por que queimadas naturais, que acontecem uma vez a cada 20 anos, limitam o crescimento de florestas e mantem os campos, que são resistentes à estas interferências. Ambos tem razões e é difícil afirmar qual ideia é a mais correta.

No último final de semana estive na Serra da Farinha Seca e num acesso súbito de vagabundice tomei uma sábia decisão de só caminhar até o cume do Pequeno Polegar e não ir mais adiante naquelas montanhas pouco conhecidas. A Farinha Seca é a serra que fica entre o Marumbi e o Pico Paraná, é exatamente a menos conhecida do espigão principal da Serra do Mar por ter os cumes mais baixos e sem muitos campos, com exceção do Mãe Catira, Pequeno Polegar, Tapapuí e Macacos. Estávamos eu, Edenilson, Julio e Moisés, somente no segundo cume de Norte para Sul e naquelas 3 horas de caminhada, já estava tão ensopado, que pesado com a água que enxugava, minha cueca já caia dentro das calças. O corpo e roupa úmida grudava tudo o que era semente, as de Caratuva predominavam.

O Julio Fiori, que caminha nestas serras há mais de 30 anos, já conhece bem a dinâmica do mato e me alertou para aquelas sementes. "São de Caratuvas" _ Disse ele. "Elas rebrotam de 7 em 7 anos, mas se não encontram luz, morrem todas, até que um incêndio aconteça e elas voltam". O Fiori não é biológo e nem conhece de plantas, mas como um matuto, já tinha observado os hábitos de vida do mato. Não é de se estranhar que as Caratuvas estejam prontas para rebrotar este ano. Estamos no meio de um ano de La Niña e o tempo tem ficado mais seco que o normal, por mais que exatamente naquele final de semana tenha passado uma frente fria provocando chuvas. Este ano tem sido um dos melhores para o montanhismo do Paraná exatamente pela falta de chuva. Será que a Caratuva está pressentindo a seca para produzir tantas sementes? 

O fato é que fazem 5 anos que não ocorre uma grande queimada na Serra e possivelmente este ano tem grande potencial para isso. Pelo menos é isso o que as Caratuvas - aparentemente -  esperam. Se elas falassem, a gente poderia por um fim na polêmica das queimadas...

O que eu acredito ter acontecido há 10 mil anos atrás

 Encostas do Mãe Catira com vista para o Planalto, hoje uma grande floresta

 Vegetação do topo do Pequeno Polegar, onde se observa Caratuvas já em meio a espécies de matinha nebular. Campo a caminho da extinção?

Mais Caratuvas 

 Sementes

Farinha Seca como é na maior parte do tempo: Molhado!

Referência:

CERRADOS, CAMPOS E ARAUCÁRIAS: A TEORIA DOS REFÚGIOS FLORESTAIS E O SIGNIFICADO PALEOGEOGRÁFICO DA PAISAGEM DO PARQUE ESTADUAL DE VILA VELHA, PONTA GROSSA - PARANÁ, Dissertação (mestrado). Programa de Pós Graduação em Geografia - UFPR 2009. 

13 de outubro de 2011

Neblina na Graciosa

Na Serra do mar paranaense existem alguns passos entre os blocos montanhosos que foram históricamente utilizados como vias de passagem entre o planalto e o litoral. Um dos passos mais famosos é o da Graciosa, que recebe o nome errôneo de “Serra”, mas que na verdade é um passo de montanha: O ponto mais baixo entre dois picos pertencentes à mesma aresta, que no caso aqui é o ponto mais baixo entre duas serras: A Serra do Ibitiraquire e da Farinha Seca.

Por conta de ser um passo, a Graciosa é um dos locais que mais chove na Serra e isso não é difícil de explicar. O ar no planalto é sempre frio, mas no litoral é quase sempre quente e úmido. Esse ar proveniente do oceano invade o continente e o local onde as duas massas se encontram é sempre ali, naquele “buraco” chamado graciosa.

Ontem, feriado em plena quarta feira, não foi diferente e ao chegarmos ao Recanto Engenheiro Lacerda, nas orilhas do Morro do Sete na Estrada da Graciosa, fomos brindados por uma densa neblina e fina chuva.

Logo nossos trajes mateiros chamaram atenção dos vendedores de pastel e caldo de cana, que mostraram grandes conhecedores do mato da região, nos alertando sobre suas “pesquisas” onde falavam de tuneis dos jesuítas e cidades perdidas na Serra. É a imaginação popular se fazendo valer de fatos verídicos, como os túneis da usina Parigot de Souza. Um dos contadores de história foi além e disse que encontrou 600 kg de ouro! Mas foi roubado depois da descoberta e hoje vende cana na beira da estrada, que azar hein?

Deixando as lorotas pra trás, entramos na floresta pelo marco 22 da estrada da Graciosa e logo fomos enxugando com nossas roupas a umidade retida pelas folhas das plantas. É a Floresta Ombrófila Densa Montana, um dos ecossistemas da Mata Atlântica mais exuberante, com diversos andares de arvores e alto estágio de sucessão ecológica. As árvores mais altas, quase todas da família das Lauraceas, atingem facilmente os 40 metros de altura. Abaixo delas, há arvores mais baixas, que vivem à sombra das maiores, Xaxins e Palmitos são os mais comuns, ou pelo menos eram.

O Palmito é extraído violentamente naquela região. Natureza selvagem é apenas aparência, pois os palmiteiros e caçadores já estiveram em todos os lugares e vira e volta encontramos com vestígios de suas atividades, cartuchos de armas, acampamentos abandonados e lixo, que rapidamente são “comidos” pela floresta úmida.

Se por um lado os clandestinos conhecem cada palmo da mata, a ciência ainda sabe pouco sobre o lugar. Ali se desenvolve um tipo de planalto levemente ondulado onde a base dos rios está a mais ou menos 580 metros de altitude e os topos, coalhados de matacões e planos, se desenvolvem a 700 metros, indo perder altura na direção norte, ao sopé da pequena cordilheira dos morros Arapongas, Tangará e Cotoxós.

Descobrir detalhes sobre o relevo e as rochas deste planalto é o objetivo meu, de Edenilson Nascimento e Mikael Arnemann Batista, amigos da montanha e de pesquisas geológicas. Nossas dificuldades esbarram na densa vegetação que encobre afloramentos, nas constantes chuvas e até mesmo na presença dos ilegais, uma vez que não sabemos o que eles podem achar de nossa presença.

Há algum tempo, o Mikael e o Otaviano encontraram um homem armado na trilha, eles se esconderam, mas o encontraram mais tarde. O homem foi gentil, mas achou ruim que “turistas” colocassem fitinhas nas árvores. Eles nada disseram sobre a marcação das trilhas feitas por montanhistas.

Penetrando a densa floresta, fomos observando as rochas e o relevo planáltico, tecendo algumas considerações sobre sua curiosa origem, até que, de repente, a trilha sumiu no meio do mato.

Naveguei por algum tempo apenas com o GPS, que dizia por eu havia passado por lá alguma vez. Na verdade, a última vez que fiz isso foi em 2009, quando junto com o Fiori e o Elcio fizemos a travessia Fazenda da Bolinha x Ciririca x Estrada da Graciosa em dois dias. Naquela oportunidade, a trilha estava aberta, mas agora as taquaras, cipós e samambaias haviam tomado a trilha.

Confiando na margem de erro de nossa tecnológica ferramenta e com o faro na trilha, fomos encontrando o caminho por entre a vegetação e assim conseguimos chegar ao rio Mão Catira. Já era quase uma da tarde e ficaria muito arriscado tentar chegar a nosso destino naquele dia, o enorme dique de diabásio localizado uma hora caminhando por dentro do rio acima.

Deixamos o objetivo para outro dia e retornamos em silencio por entre a escuridão da floresta. No caminho de volta encontramos pegadas de outros visitantes e suas jaquetas penduradas num galho de arvore. O que será faziam ali?

A floresta da Graciosa esconde muito mais do que mitos de tuneis ocultos, ouro de Jesuítas e cidades engolidas pela selva. Esconde também muitos indícios sobre as origens e evolução da serra do mar e será um local onde voltarei muito mais vezes.

 É assim quase o tempo todo!

 Deni e Mikael no marco 22

 O marco e a estrada da Graciosa

 Dentro da floresta

 Matacões de granito





 Dique de diabásio






20 de abril de 2010

Morro do Sete – Serra da Farinha Seca

Fim de semana com sol e não muito calor, um indicador que a temporada de montanhismo está começando após longos meses de chuvas.

Aproveitando o bom tempo fui para a Graciosa com o Julio Fiori para conhecer uma montanha na Serra do Mar paranaense que eu ainda não conhecia, o Morro da Mãe Catira e do Sete.

A caminhada começa em um sitio ao lado da antiga estrada da Graciosa. Quase imediatamente após deixar o carro no sitio, começa a caminhada na bela floresta, que certamente sugere o nome de “Graciosa” para aquele passo entre os maciços do Ibitiraquire e Farinha Seca, erroneamente chamado de “Serra”.

A caminhada é tranqüila, atravessando rios cristalinos onde abastecemos os cantis com uma água pura, excelente pedida para testar mais uma vez aquele repositor eletrolítico Suum que eu ganhei e que é muito gostoso!


Depois de meses de chuvas, a trillha estava um lamaçal. Encontrei umas pessoas que reclamaram do barro, mostrando o tênis encharcado e a meia de algodão já arriada, como se fosse uma "meia boca de sino".

Quando você encharca muito o pé, é comum que a meia fique pesada e comece a entrar dentro da bota, encharcando ela também, mesmo que seja impermeável, o que provoca as desagradáveis bolhas. Como eu estava com uma bota boa e uma meia super tecnológica, enfiei o pé na lama sem dó e pude testar como estes equipamentos fazem a diferença.

Alguns equipamentos existem a muito tempo, mas com a tecnologia dos materiais eles foram melhorando de forma significativa e numa condição destas, você caminha com todo o conforto, pois fica com os pés secos e sem bolhas no final. É o caso de botas e meias.

Há um tempo atrás, quando eu cheguei em Curitiba, não costumava usar botas. Certa vez numa saída de campo com a UFPR, eu pisei numa poça d´água ao sair do ônibus e fiquei passando mal o dia inteiro porque havia molhado minha meia. O mesmo aconteceu comigo na cidade, com as maravilhosas calçadas curitibanas e esse clima de chuva constante, cheguei a molhar o pé no Centro Politécnico e tive que ficar o dia inteiro lá aguentando frio do pé molhado.

Hoje eu uso minha botas Nômade até mesmo na cidade e na trilha estou usando uma meia de primaloft da Lorpen, que expulsa o suor e seca super rápido, fazendo toda a diferença numa trilha dessas, que mesmo debaixo do lamaçal, o pé fica seco e assim o passeio fica agradável como é para ser. Pode ver na foto que a bota mesmo surrada, combinada com uma meia destas tecnológicas, aguenta a umidade e isso evita bolhas e não há risco das famosas meias boca de sino.


Com a subida, a gente sai das árvores e entra na região dos campos com Caratuvas, mas logo volta para uma florestinha de baixo porte, a chamada “matinha nebular”. O ponto mais alto do Morro do Mãe Catira é recoberto por uma florestinha desta.

De lá, começa uma descida até o Morro do Sete. Esta é uma das poucas montanhas da Serra do Mar que para se chegar ao cume é preciso descer. Mas esta descida vale a pena, pois o Mãe Catira não tem uma visão boa por conta da vegetação e o cume do 7 é descampado.

Na verdade, ambas as montanhas era um único maciço, uma falha na escarpa que delimita as montanhas evidencia que o Mãe Catira foi soerguido em algum momento da história geológica. Outras falhas em sentido perpendicular foram pontos de incisão de erosão remontante que esculpiu diversos canyons no front da Escarpa da Serra do Mar e entre o Sete, Mãe Catira e Polegar há um destes canyons gigantes e profundos.

Você deve estar se perguntando, mas porque do nome Sete? Bem, este motivo é bem tolo. É que na escarpa da montanha há uma fenda que parece desenhar o número sete na rocha. Eu na verdade nunca consegui visualizar isso... O que vi foram falhas geológicos da Zona de Cisalhamento do lineamento brasiliano, vi também o grabén entre a Serra do Mar e o esporão do Feiticeiro, enxerguei os pedimentos Alexandra no sopé das montanhas e vi que terei muita dificuldade de interpretar tudo isso mais tarde...

Traduzindo, o que eu vi foi um dos mais belos visuais da Serra do Mar, pois estava exatamente no meio entre o maciço onde fica o Pico Paraná e a Serra do Marumbi. Veja as fotos:

Pico Paraná, Ciririca e Aguda da Cotia

Falhamentos

Canyon


Serra do Prata e Serra da Igreja

Baia de Paranaguá

Serra do Marumbi

Panorâmica para a Serra da Farinha Seca

Panorâmica para o Ibitiraquire