Blog do Pedro Hauck: opinião
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20 de outubro de 2020

De Che Guevara no Popocatéptl, a Rudel no Llullallaico

Algumas semanas atrás, me dediquei a escrever dois artigos curiosos sobre montanhismo. O primeiro deles, intitulado "Antes da revolução cubana, Che Guevara se dedicou ao montanhismo", conta uma história que descobri recentemente que afirma que o médico e guerrilheiro argentino logrou escalar a segunda montanha mais alta do México, o Popocatéptl, que tem 5420 metros de altitude. 


Che Guevara no Popocatéptl
Che Guevara no Popocatéptl

Este grande vulcão apresenta uma grande beleza cênica e junto com o Pico Orizaba e outras montanhas mexicanas, sonho um dia escalar. Já havia ouvido falar que Che havia tentado escalar o Popocatéptl, mas sem sucesso. No entanto, me deparei com uma matéria de um site argentino que resgatou a história da tentativa bem sucedida de cume que aconteceu no dia 12 de outubro de 1955.

Fui massacrado e  sofri cancelamento por escrever uma matéria de curiosidade sobre Che Guevara que é ícone da esquerda. No entanto, decidi não responder nenhum comentário e nem mensagens que me foi enviada. Já que no próprio texto não há nenhuma menção à ideologia de esquerda, tão pouco o foco não é relacionado a nenhum episódio político envolvendo o revolucionário, que na época ainda era um médico argentino que morava na cidade do México. 

Rudel no Llullallaico

Poucos dias depois, escrevi um segundo texto: "Hans Ulrich Rudel, piloto da Luftwaffe e montanhista que encontrou ruínas incas nos Andes". Em comum com o primeiro texto, é uma história de um homem que lutou numa guerra defendendo um lado que ocasionou coisas horríveis. Neste caso, o nazismo. Rudel foi julgado, mas absolvido por crimes de guerra. No entanto, mesmo tendo se livrado da pena de morte, ele ajudou na fuga de um dos maiores criminosos do holocausto, o médio alemão Josef Mengele, que veio a morrer no Brasil. Condenável? Com certeza, mas o artigo não focou nesta faceta do nazista escalador que realizou seus feitos sem uma das pernas, amputada na guerra. O texto novamente era uma curiosidade histórica sobre um personagem da direita e não uma doutrinação nazista e como esperado ninguém me criticou, se ofendeu ou se revoltou por isso.

Abaixo deixo a foto de Czeslawa Kwoka, 14 anos, uma criança. Ela foi executada em Auschwitz em 18 de fevereiro de 1943, injetaram-lhe fenol, direto no coração. Pouco antes de sua execução, ela foi fotografada por um companheiro de prisão, Whilem Brasse. (Ele mais tarde testemunhou contra o carrasco de Kwoka.) Czeslalawa, apavorada e espancada, não falava a língua de seus carrascos e havia perdido sua mãe apenas alguns dias antes. Ela é uma das cerca de 250.000 crianças executadas em Auschwitz-Birkenau, de Josef Mengele, que graças a seu amigo Hans Ulrich Rudel que usou de seu prestigio com políticos argentinos e paraguaios para se esconder no Brasil. Mengele faleceu por motivos naturais sem nunca ter sido julgado por seus crimes em nosso país em 1979.


Minha pergunta: Por que a revolta contra o texto de Guevara e um silêncio total em relação à história de Rudel e Mengele?


28 de abril de 2015

Indicação ao prêmio Mosquetão de Ouro e meus palpites


Eu o Maximo fomos indicados ao Prêmio Mosquetão de Ouro, que é uma premiação nova criada pela CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada) inspirada no famoso Piolet d’Or.

Esta premiação tem como objetivo premiar os maiores feitos do montanhismo brasileiro e como montanhismo é algo muito abrangente existem 4 categorias: 

- Montanhismo (trilhas, travessias e alta montanha)
- Escalada (escalada tradicional, móvel, big wall e conquistas)
- Escalada Esportiva (boulder e escalada esportiva em rocha)
- Montanhismo e Sociedade (contribuições para a organização do montanhismo, acesso e conservação)

Fomos indicados na categoria montanhismo por termos finalizado em 2014 o projeto de ter escalado todas as montanhas com mais de 6 mil metros de altitude na Bolívia

Fora a gente, houve diversas outras realizações interessantes o que demonstra que o Brasil não é mais coadjuvante no cenário do montanhismo mundial. Inspirado no meu amigo Victor Carvalho que hoje escreveu a respeito desta premiação, irei dar minha opinião sobre os destaques do prêmio. 

Antes de mais nada queria salientar que o nível está muito bom e que independente do resultado todos os indicados merecem o prêmio e que abaixo está apenas uma opinião. 


Categoria montanhismo:

Sou suspeito para falar desta categoria, pois sou um dos indicados. No entanto, não acho anti ético tecer comentários sobre minha indicação e da colega Ana Elisa Boscarioli.

A Ana em 2014 escalou o Denali, montanha mais alta da América do Norte e com esta montanha finalizou o projeto 7 cumes, que é um projeto bastante famoso e que atrai bastante mídia. O ponto forte deste projeto, na minha opinião, é justamente a escalada do Denali e a do Everest, pois ela é a montanha mais alta do mundo. Ana foi o quinto brasileiro a fazer o projeto, mas a primeira mulher. Para realizar o projeto, a Ana enfrentou muitos desafios e numa das etapas ela foi sequestrada pelos índios da Papua Nova Guiné e teve que desistir do Carstenz para voltar um ano mais tarde. No entanto é preciso ressaltar que as 7 montanhas deste projeto são bastante conhecidas, estruturadas e muito escaladas.

Eu e o Max, no entanto, escalamos 14 na Bolívia. Fizemos todas as expedições àquele país por conta própria, as últimas, inclusive, fomos de carro até lá, o que em si já é uma dificuldade (vocês não têm idéia de como é complicado dirigir na Bolívia). Então há a questão da autonomia e também o fato de que muitos destes 6 mil bolivianos são montanhas remotas e pouquíssimo escaladas, como o Uturuncu e o Chaupi Orco. Há outros que são difíceis, como o Illampu e Chearoco. Outro problema é que a cartografia da Bolívia é muito ruim e não sabíamos quais eram os 6 mil daquele país. Resolvendo este problema, descobrimos que uma montanha que era tida como 5 mil tinha 6008 metros, o Capurata. Ou seja, houve muita pesquisa e exploração. Assim, neste novo formato com 14 cumes, só não fomos os primeiros no mundo a realizar pois um pouco antes o equatoriano Santiago Quintero, usando os dados que o Maximo lhe deu, fez antes. (leia mais o que escrevi deste projeto)

Acho que houve poucos indicados nesta categoria. Se eu pudesse também indicaria o Waldemar Niclevicz pela escalada no Ausangate no Peru e Marcos Costa pela escalada do Daugou Leste na China.

Categoria Escalada

Nesta categoria eu acho que o destaque é a escalada do Lucas Marques e Sergio Ricardo repetindo a via Place of Happiness em 1 dia. Esta magnifica via aberta pelo Stefan Glowacz, Ed Padilha e outros monstros mistura dificuldade extrema com parede e muitos escaladores de altíssimo nível não conseguiram escalar ela. Fazer esta escalada em um dia apenas é um feito e tanto.

Categoria Escalada Esportiva

Acho que novamente o Lucas Marques se superou nessa. Os outros indicados realizaram feitos mais atléticos e tecnicamente mais difíceis. No entanto escalar uma via de 8c em solo!!! (via Sinos de Aldebarã) Pra mim a realização deste feito ultrapassa o limite esportivo para um domínio espiritual dos próprios medos. Bastaria dizer que qualquer erro nesta escalada poderia fazer com que ele nunca mais escalasse na vida. Pra mim este feito foi o maior de todos os indicados e merece meu voto e respeito!

Categoria Montanhismo e Sociedade

Pessoalmente tenho uma grande admiração pelo trabalho de Pedro da Cunha Menezes. Não que os outros indicados não mereçam, mas acho que a contribuição de Pedro no campo das idéias e como exemplo quando elas foram postas em práticas é fenomenal!

Pensando num montanhismo do futuro, acho que os valores que Pedro defende são primordiais para que novos mosquetões e piolets de ouro continuem existindo. Infelizmente em nosso país os pilares principais da cultura do montanhismo que são a aventura e a liberdade são ameaçados por visão demasiadamente conservadoras sobre a questão da presença do homem em ambientes naturais e é isso o Pedro trata.
Pedro da Cunha Menezes mostrou como é importante haver visitação nos parques, como é importante valorizar a experiência dos visitantes, dentre eles nós montanhistas e outros esportistas. É só agregando valor às unidades de conservação que de fato vamos conseguir ter a preservação que queremos. Meu voto vai pra ele!


1 de julho de 2014

Futebol, publicidade e xenofobia

A Copa do Mundo é uma oportunidade de negócios para as empresas. Devido a paixão pelo esporte as campanhas de publicidade exploram bastante o evento esportivo para expor seus produtos e marcas. Uma das campanhas mais divertidas foi da cerveja Skol, que fez uma boa campanha explorando alguns fatos engraçados sobre a Itália, França e Inglaterra. O bom humor, no entanto virou ofensa quando veio a propaganda da Argentina. Nela, os argentinos são presos numa casa e ela é lançada para fora da terra em um foguete. Era pra ser engraçado? Não foi...

Assisti este comercial ao lado de um amigo argentino que não gosta de futebol, não tem nenhum time e não está nem aí pra Copa. Ele se sentiu ofendido. Outra vez, eu estava caminhando com uma amiga argentina em Curitiba, falando castelhano, língua que falo fluentemente e um pedestre chamou ela de “puta” e quase me agrediu _ Desculpe, achei que você fosse argentino.

Quantas e quantas vezes os argentinos são mal tratados ao visitarem o Brasil? O brasileiro tem fama de ser hospitaleiro e gentil com os estrangeiros e de fato é, menos com argentinos e culpa disso é o futebol...

O futebol é o esporte favorito dos brasileiros e a seleção da Argentina é uma das maiores rivais de nossa seleção. Brasil e Argentina é como um Fla x Flu, um Corinthians e Palmeiras, Cruzeiro e Atlético, Grenal e por aí vai. Quando alguém faz uma piada de palmeirense, todo corinthiano acha graça. A idéia da piada com argentinos é igual a essa, mas no caso é um país contra outro. O problema é que tanto quem faz a piada como quem dá risada dela anda exagerando e o que era pra ser divertido se tornou humilhação. Dá vergonha de ver o comercial da Skol e outras de extremo mal gosto.

Eu conheço muito bem a Argentina, de La Quiaca a Ushuaia. Já estive em todas as Províncias e esta experiência está bem relatada aqui no Blog. Posso dizer com autoridade depois de anos visitando e conhecendo argentinos que a rivalidade Brasil x Argentina é unilateral. O Argentino não odeia o brasileiro como o brasileiro odeia o argentino. Pelo contrário, o Brasil é um país em moda por lá. Os argentinos querem visitar o Brasil, eles acham que somos um país mais desenvolvido e melhor para viver. Eles adoram ter sandálias havaianas com a bandeirinha brasileira (aliás outro que faz piadinhas infames sobre os Hermanos). Eles conhecem nossas músicas, nossos escritores e assistem a nossos filmes. Infelizmente, mesmo a Argentina tendo uma cultura maravilhosa, ela não chega aqui como a nossa chega por lá.

Hoje o José Simão, que há muito tempo tem feitos piadas sem graça, fez um comentário jocoso sobre a Argentina. Embaixo, uma legião de fanáticos por futebol dava sua contribuição raivosa contra minha opinião de que não deveríamos ofender nossos vizinhos do Sul. 

Como uma multidão de desmiolados falaram que eu era um idiota, e que eu deveria ser expulso do Brasil por gostar de lá. Ainda acabavam seus comentários dizendo que os argentinos se achavam superiores e arrogantes e isso justificaria aquele ódio mortal contra nossos “indesejáveis” vizinhos. Mas ao afirmarem isso com tanta convicção, eram eles os próprios arrogantes e intolerantes. 

Gostaria muito que estas pessoas fossem um dia visitar a Argentina e que sentissem a vergonha por terem promovido tanta calúnia. Gente idiota existe no mundo inteiro, inclusive na Argentina, mas acho que em época de Copa do Mundo elas vestem uniforme.



31 de março de 2014

Ditadura e liberdade

Hoje, dia 31/03/2014, fez 50 anos do golpe militar. Pela internet tenho visto muitas declarações exaltadas. Geralmente não fico discutindo muito este tipo de assunto por lá, mas são tantos os pontos que discordo que venho aqui no meu espaço dizer o que penso. Muitas pessoas não entendem o que é democracia e não entendem que apoiar o regime que destituiu o presidente João Goulart é ir contra sua própria liberdade. Neste artigo vou discutir os erros comuns que as pessoas tendem a cometer e inclusive discutir a relação do golpe com a liberdade e corrupção.

A primeira coisa que as pessoas pensam sobre o regime militar que governou o país entre 1964 e 1985 é que a linha dura do exército reprimia o crime, dando segurança aos cidadãos. Isso não é verdade, a criminalidade nada tem a ver com a repressão política e muito menos com a liberdade democrática. A violência evoluiu com o tempo, muito devido com a evolução do tráfico e do crime organizado, coisa que não existia antes de 1964. A ditadura não impediu o crescimento da criminalidade.

No campo econômico, as décadas de 1960 e 1970 foram décadas de crescimento e prosperidade. Porém, o crescimento industrial e econômico no país nesta época foi um reflexo do que aconteceu no mundo. Assim como hoje se fala mal do governo federal, dizendo que o governo no PT poderia ter levado o Brasil a um crescimento maior, o mesmo ocorreu com os militares que aproveitaram o milagre econômico, mas deixar o país quebrado na década de 1980.

E não fui eu quem disse isso, foi o próprio ministro da economia da época Delfim Neto, numa entrevista para a TV Câmara, que afirma que em 1979 o Brasil quebrou nas mãos dos militares. No fim da ditadura herdamos um país mergulhado em dívidas e uma inflação insustentável que foi estabilizada somente na democracia. Diga-se de passagem, Delfim defendeu em sua tese de doutorado na USP a concentração de renda (propensão marginal para a poupança) seria a fonte de financiamento para obras de infraestrutura básica para amparar a economia brasileira. Política adotada por Castelo Branco que culminou nas enormes diferenças que até hoje assombram a sociedade. Antes da ditadura existiam tantas favelas em nossas cidades? O bolo cresceu, mas ele nunca foi dividido.



E a liberdade? Muitos acham que a gente tem menos liberdade hoje por conta da violência do que naquela época. Isso também não é verdade. Ontem publiquei no AltaMontanha uma notícia onde nosso amigo Vitamina conta que quem fazia montanhismo já era considerado suspeito de subversão.

Aliás eu defendo a tese de que foi por conta da opressão do regime que surgiu no país a famosa figura do farofeiro chapado. Imagine só, uma época repressiva onde havia muito rock and roll e a revolução sexual correndo solta. Os locais mais distantes, como as montanhas, se tornaram sinônimo de um local para se libertar, daí a associação até hoje de que você vai para a montanha para ficar chapado e muito louco.

Será que havia liberdade? Era permitido se reunir? Constituir uma associação civil? Poder legislar sobre assuntos econômicos e sociais? Não!

Vejo grupos de pessoas protestando a favor da ditadura e da velha moral TFP. Eles se contradizem, pois defendem um regime onde não teriam esta liberdade. Eles não entendem o que é uma democracia, acham que só é válido as suas reivindicações e não as dos outros, ou seja querem um regime em que eles sejam privilegiados, pois as suas liberdades valem, não a dos outros. Como podem dizer que são contra a atual corrupção da democracia se o que eles querem é o privilégio político. Isso não seria uma forma de corrupção?

 A violência, a corrupção e a depressão econômico não é culpa da democracia. O combate a tudo isso é que se faz através do fortalecimento da democracia. Temos apenas 29 anos de democracia e muito o que evoluir. Na ditadura não podíamos debater, na democracia podemos e debatendo podemos corrigir e melhorar a sociedade.

João Goulart ao lado de sua gatíssima esposa Maria Thereza Cruz em seu ultimo discurso no Rio de Janeiro em 1964.

25 de maio de 2012

Semana Brasileira de Montanhismo e algumas escaladas no Rio

A Semana Brasileira de Montanhismo cumpriu a expectativa de ser um evento histórico e eu tive o prazer de participar na maior parte dos eventos e realizar uma cobertura para o site AltaMontanha (veja o resumo dos acontecimentos aqui).

Particularmente fiquei muito contente de ver temas que há anos eu venho chamando atenção neste blog e no próprio AltaMontanha que dominaram a discussão, as proibições por causas ambientais. No evento eu vi pessoas levantarem a bandeira que a anos eu levanto, que é a filosofia de que um parque fechado à visitação não conseguirá atingir seu objetivo de preservar a natureza, pois não se preserva o que não se conhece.

Na SBM ficou evidente que as idéias preservacionistas, que são aquelas que presam por parques protegidos por redomas de vidro e fechados para a visitação, onde apenas é permitido contemplações superficiais, mas sem a presença do ser humano e predomínio de áreas intangíveis é uma filosofia falida que ao invés de preservar a natureza afastou os potenciais protetores e entusiastas e permitiu que pelas portas do fundo, verdadeiros criminosos ambientais, como caçadores, palmiteiros e madeireiros pudessem agir sem serem vistos. Enfim, mostrou um caminho que é aquele que quem gosta de natureza e aventura quer: Parques abertos para trilhas, escaladas, acampamentos e esportes.

A participação de diversos gestores de parques e autoridades ambientais deu um ar de legitimidade ao encontro e esperamos que em breve possamos ver na prática tudo o que foi discutido na teoria.

Se de um lado houve este progresso, de outro veio a tona um outro problema que aventei recentemente que é a questão jurídica que envolve a questão do risco. Agora ficou bem claro que existe esta outra frente, que advém da visão do estado de quererem proteger seus cidadãos, mesmo que isso venha a restringir sua liberdade. É o que acontece com a escalada, que é uma atividade de risco. Muitos gestores de parques proibem a prática, pois sabem que eles poderão ser responsabilizados em casos de acidentes dentro das unidades de conservação que eles administram. 

No Brasil, nunca houve um gestor de parque que tenha sido responsabilizado por um acidente envolvendo esporte de aventura, mesmo assim há proibições de montão por este motivo. Este é outro problema sério que as federações de montanhismo tem que resolver.

A SBM foi muito bem organizada e foi muito especial. Dificilmente outra SBM conseguirá bater esta no quesito organização e escolha dos locais de realização, fica aí um desafio para as próximas organizações. Infelizmente o que eles não puderam prever era o tempo, que na durante a semana foi predominantemente de chuva. Claro que entre uma nuvem e outra pudemos curtir um pouco das escaladas na Urca. Fazendo uma parceria com a Camila e com o Edson "Dubois" Struminski, pude repetir algumas vias clássicas na Babilônia e no Pão Açúcar, dentre elas a escalada da Italianos, começando pela primeira enfiada da Cavalo Louco.

Particularmente foi muito bom ter escalado com o Dubois, que é uma pessoa bem experiente e que participou do 1o Congresso Brasileiro de Montanhismo em 1993. Ele escreveu uma boa resenha sobre o evento (pode ser lida aqui). Além de escalador, Dubois é também doutor em Engenharia Florestal, participar com ele e outros escaladores doutores do Encontro Científico também foi uma boa experiência, aliás, um experiencia em que roubei um pouco a cena, aproveitando a ausência de um convidado para falar um pouco de geomorfologia das montanhas, que é meu tema de doutorado. 

Montanha é relevo e relevo é geomorfologia. No encontro científico se falou de tudo na montanha, fauna, flora, água, clima, solos, geologia, mas e o relevo? e a montanha propriamente dita? Essa fica minha singela crítica ao evento, se eu não tivesse roubado a cena, isso não teria sido discutido através de um viés temporal, que é como as montanhas brasileiras foram formadas e quando.Espero que no próximo encontro eu possa participar de novo, como convidado, com dados mais concretos do que apenas as hipóteses já conhecidas.

Roubando a cena no encontro científico



















8 de fevereiro de 2012

Mobilização contra lei polêmica

Quem não conhece a Lei Estadual (PR) 17.052, está na hora de parar para ler.

Esta lei irá regulamentar a promoção da prática de esportes de aventura no Paraná e isso abarca o montanhismo, escalada, trekking, canoagem, voo livre, Mergulho, etc... Há muito tempo que tanto a prática de esportes, quanto sua comercialização, o turismo de aventura, vem gerando discussões, pois há uma grande necessidade de regulamentação do turismo e isso pode interferir na pratica do esporte.

Na esfera federal, uma lei polêmica está sendo votada. Porém, ao que parece, os interessados para que esta lei seja aprovada andaram agindo nos Estados e tanto no Paraná, quanto no Ceará e Minas tem leis que regulamentar os esportes que são literalmente um copy e paste do texto. Além destes estados, Mato Grosso e Rio de Janeiro tem projetos idênticos.

O que está em jogo é a criação de um novo mercado que irá certificar guias, cursos e praticantes de esportes. Pelo texto original da lei, dá pra concluir que a "segurança" que se deseja ao esporte está sendo substituida por uma série de burocracias que por si nada demonstram de eficacia contra eventuais acidentes. É um literal "criar dificuldade para vender facilidade".

Uma grande mobilização está acontecendo e um abaixo assinado já está disponível. Confira abaixo o link da FEDERAÇÃO PARANAENSE DE MONTANHISMO, onde há um esclarecimento sobre esta lei. Clique abaixo para assinar a petição.

:: ABAIXO ASSINADO CONTRA A LEI 17.052/2012


12 de dezembro de 2011

Artigo na revista Ecologic

Recentemente publiquei um artigo na revista Ecologic. O artigo é sobre planejamento urbano e ambiental no Brasil, perda da qualidade de vida do brasileiro, especulação imobiliária e tragédias ambientais. 

O que isso tem tudo tem a ver? leiam na íntegra abaixo:


Tragédias ambientais e a tragédia do dia a dia no Brasil

Recentemente temos assistidos com alarde casos de tragédias ocasionadas por chuvas fora da normalidade que vitimou algumas milhares de pessoas no Brasil. Estes episódios, que são discutidos como resultados nas mudanças climáticas globais, atingiram cidades do vale do Itajaí em Santa Catarina em 2008, São Luis do Paraitinga em 2009, Angra dos Reis no Reveillon de 2010, Rio de Janeiro e Niterói neste mesmo ano e a grande tragédia da Serra fluminense em Petrópolis e Teresópolis que produziu o maior número de vítimas ambientais na história do Brasil em 2011.

A causa direta destas tragédias, como já falado, é o clima que está cada vez mais quente e chuvoso. Este tipo de clima, quente e úmido, é o clima típico de boa parte do Brasil e ao longo de milhares de milhões de anos foi responsável pela elaboração do relevo do Sudeste, com seus “Mares de Morros” e solos profundos anteriormente florestados.

Não é novidade, no entanto, que as chuvas resultem em tragédias quando elas ocorrem com uma concentração acima da média. Foi o que houve no dia 18 de março de 1967 em Caraguatatuba-SP. Neste dia, uma tempestade de poucas horas despejou sobre a Serra do Mar uma quantidade de água esperada para o mês inteiro. As vertentes da Serra do Mar não suportaram o volume d´água despejando toneladas de lama e vegetação sobre a cidade, numa tragédia de proporções superiores aos eventos recentes, mas que vitimaram menos pessoas pois na época o município era menos habitado que hoje.

Tragédia Ambiental.


Quando falamos de meio ambiente temos que ter em mente que os sistemas ambientais têm uma dinâmica e uma história de evolução no tempo. As tragédias que mais assustaram os brasileiros aconteceram em paisagens dominadas pelos mares de morros e não dá para falar nas origens deste tipo de paisagem se antes comentar as idéias do geólogo Francês Henri Erhardt, que na década de 1960 elaborou a teoria da bioresistasia.

Erhardt estudou camadas geológicas no litoral de Madasgacar e notou grandes diferenças nos sedimentos, atribuindo isso à transições de climas tropicais secos para úmidos. Em climas tropicais úmidos, a tendência é que a vegetação se desenvolva em extensas florestas, as chuvas e o calor seriam responsáveis pela evolução de solos profundos e o relevo ficaria ao longo do tempo amorreado com formas mais suaves. Para este tipo de dinâmica de paisagem ele deu o nome de “biostasia”.

Já a resistasia seria o oposto. Em um clima tropical seco, a vegetação desapareceria e o solo desnudo ficaria desprotegido, favorecendo a remoção de solos, exposição das rochas e formação de planícies com o material proveniente desta erosão.

Milhares de milhões de anos da presença de uma dinâmica biostática na orla atlântica do litoral brasileiro resultaram na elaboração do chamado domínio morfoclimático dos mares de morros florestados, hoje, um domínio quase totalmente alterado com séculos de ocupação sem planejamento do espaço brasileiro.

Com a remoção da mata atlântica, passamos de uma dinâmica biostática para uma resistásica forçada. O livro “Ecodinâmica” do geógrafo Jean Tricart está todo baseado nesta mudança de energia e ele situa bem, ainda na década de 1970, os problemas ambientais que iríamos enfrentar com o desrespeito à dinâmica da natureza.

A floresta além de ajudar na evolução dos solos, ainda os protege da ação da água. A copa das árvores quebra a energia das gotas de chuva, que chegam ao solo e percolam pelos poros, alimentando os lençóis freáticos. Sem esta proteção, a gota da chuva chega diretamente ao solo com alta energia, desorganizando a estrutura superficial deste solo que perde a impermeabilidade e favorece o escoamento superficial, causando enchentes nos rios que recebem mais água que o normal, além de sedimentos, que pioram ainda mais a capacidade de drenagem dos cursos d´água cada vez mais sobrecarregados.

Este fenômeno não ocorre somente em áreas desmatadas. Em áreas reflorestadas com Pinus e Eucalipto elas também são comuns, uma vez que estas árvores têm um porte arbóreo muito elevado e suas folhas não barram a energia da água, pois tem um formato alongado. Uma gota de água que cai da copa de um Eucalipto adulto tem o mesmo efeito de uma gota que cai do céu sem a proteção do dossel de uma floresta. Não é de se estranhar que muitos destes acidentes ocorreram em locais que além de terem um relevo acidentado, tinham também enormes eucaliptais, como no vale do Itajaí, São Luis do Paraitinga e na Serra da Mantiqueira.

A mudança no clima, mais o mau uso do solo são responsáveis por fenômenos de deslizamento de massas, enchentes e fluxos de lama.

Tragédia do dia a dia
Mais do que apontar as causas diretas para as recentes tragédias no Brasil, precisamos ter em mente as relações humanas que levaram estas tragédias a chegar à dimensão digna de uma tragédia.

Nos últimos 50 anos, o Brasil passou por um forte processo de industrialização seguido de uma forte e rápida urbanização. Se até 1950 o Brasil era um país rural, hoje, com 83,75% da população vivendo em cidades, vivemos outra realidade, uma realidade de cidades gigantes!

O rápido êxodo do campo para as cidades, a falta de um planejamento e de infraestrutura levou o Brasil a um tipo de urbanização espontânea conhecido mundialmente com o nome de favela. Hoje, as favelas estão presentes em todas as regiões metropolitanas e de acordo com a ONU, ali vive 26,4% da população brasileira.

As favelas se caracterizam pela ocupação rápida e sem planejamento de terrenos ociosos pela população. O que provoca estas ocupações, no entanto, não é a renda baixa, mas sim o déficit habitacional seguida pela especulação imobiliária e a concentração de emprego nas áreas centrais das cidades. Desta forma, é mais fácil ocupar terrenos ociosos como encostas e fundos de vale do que conseguir financiamento de uma casa própria.

As ocupações da população de baixa renda são as mais prejudicadas pelos problemas ambientais, pois são as que tem as estruturas mais precárias, como por exemplo a ausência de rede de esgoto, o que leva a construção de fossas onde é despejado substâncias saponáceas que floculam as argilas e desestabilizam encostas.

Nos casos recentes das tragédias ambientais, condomínios de luxo e casas de alto padrão também foram afetados, mostrando que exceto pela diferenciação do padrão arquitetônico, muitas das construções do lado oposto da pirâmide social brasileira segue o mesmo caminho das favelas.

Estas são as tragédias do dia a dia os quais os brasileiros estão fadados a viver. A tragédia do mundo sem planejamento, onde as regras do mercado imobiliário dita a história da vida privada do brasileiro e influencia nas tragédias ambientais. Nossas cidades estão cada vez mais apinhadas, ocupando encostas, fundos de vale. Não temos mais áreas verdes e o que resta de verde no cinturão ao longo das grandes metrópoles estão ameaçados por este fenômeno de “rurbanização” que fazem condomínio de luxo viver lado a lado às grandes periferias.

Se não bastasse vivermos sem a mínima qualidade de vida urbana, a ausência de um planejamento provocado pela voracidade do mercado imobiliário de todas as classes está levando o brasileiro a conviver mais e mais com as tragédias da natureza, que as causas na verdade são mais humanas que ambientais.

Políticas para a tragédia

Além do Brasil não conseguir reverter a voracidade da especulação, não há perspectivas de melhora deste quadro. Muito se discute sobre as mudanças climáticas globais e seus efeitos para a sociedade brasileira. Equipa-se as defesas civis, cria-se alarmes para as tragédias, mas as políticas públicas, ao invés de resolver o problema, são coniventes ou senão são culpadas pelas tragédias.

Pouco se fala em planejamento local. As prefeituras têm pouco conhecimento e mão de obra para realizar um planejamento que permita um uso do solo com mitigação de impactos e muitas vezes o que vemos é o contrário disso, prefeituras sendo colaboradoras das tragédias com mudanças de planos diretores que permitem a ocupação de áreas de risco, como ocorre, por exemplo, na prefeitura de Valinhos – SP, onde está sendo discutida a ocupação da Serra dos Cocais para a construção de condomínios de luxo.

Além da ausência de políticas locais, o mau exemplo vem também da esfera federal, com a alteração do código florestal que permite ainda mais a alteração da dinâmica da natureza que provocam as tragédias.

Por todos estes motivos não podemos mais falar em tragédias ambientais isoladamente e devemos situar nosso período histórico, marcado pelo paradigma da crise ambiental, como resultado de um longo processo que ainda está longe de terminar e enquanto houver chuva de verão, haverá mais uma tragédia: A tragédia brasileira.

4 de novembro de 2011

Vote nas Cataratas do Iguaçu

... mas não se esqueçam de limpar o rio que pode se tornar uma das maravilhas do mundo.

Hoje de manhã, o Waldemar Niclevicz, que é o montanhista brasileiro com mais experiência em altitude no país e uma das maiores referência no esporte, se juntou a diversas pessoas que defendem que as Cataratas do Iguaçu seja votada como uma das maravilhas do mundo.

O feito do Waldemar é notável. Chamar atenção do público para que esta verdadeira maravilha do mundo se transforme numa maravilha oficial é muito boa para o Brasil e para a Argentina, países que dividem as cachoeiras. É ainda mais pra nós paranaenses, pois o rio Iguaçu nasce em nossa Serra do Mar e atravessa todos os planaltos do Estado até chegar no rio Paraná. As águas deste rio fazem um caminho enorme até encontrar o mar, no estuário da Prata, entre a Argentina e Uruguai, sendo que sua nascente fica apenas 15 km do litoral!

Apóio totalmente a iniciativa do Waldemar, que além de ser uma inspiração, é um colega de montanha com quem eu já dividi corda na montanha. Foi ele que me apresentou algumas das mais belas vias do Marumbi, cordão montanhoso onde nascem alguns rios que drenam para o Alto Iguaçu.
 
Aqueles rios de águas cristalinas que descem as encostas da Serra do Marumbi e Baitaca formam o rio Iguaçu e logo no começo ele atravessa a região metropolitana de Curitiba. Coitado! A capital ecológica tem seu lado feio e este é o lado do rio Iguaçu: Suas margens já foram totalmente destruidas, sem mata ciliar, o rio é constantemente assoreado, o que não é ruim para as cavas de areia, que durante décadas serviram os paranaenses de areia para suas construções, ecológicas ou não...

O rio tão bonito, que serve o povo da RMC de água, torna-se indesejável quando cruza a cidade. Sua margem é tão desvalorizada que ninguém quer morar lá perto e o local se transformou no maior bolsão de pobreza do Estado, onde milhares de familias, sem ter onde morar, construiram precárias moradias em uma situação de risco.

Depois de cruzar a capital, o rio morto vai ganhando vida novamente. Ele corta a escarpa entre o primeiro e segundo planalto e depois entre o segundo e o terceiro, mostrando que é mais antigo que o relevo do estado! Entranto na região dos basaltos, ele vai se encaixando nas fraturas e falhas existentes nesta rocha até a região próxima à sua foz, onde há um desnivel abrupto ocasionado pela diferença de resistencia entre um e outro tipo de basalto. Ali, o rio está enxaixado numa falha, que é o canyon do rio Iguaçu, na fronteira entre o Brasil e a Argentina. O resultado é o espetáculo das Cataratas do Iguaçu, espetáculo que ainda recebe um adicional. Você sabia que lá concentra o maior número de vias de escalada do Oeste do Paraná?

Eu já votei nas Cataratas como maravilha do mundo, entretanto gostaria de votar na idéia de devolver ao rio toda sua maravilha perdida.


Fotos do Rio Iguaçu:

 Vista da represa do Caiguava (rio Piraquara, afluente do Iguaçu), desde montanha na Serra do Marumbi.

Represa e a RMC vista da Serra do Mar.

 Rio Iguaçu na divisa Curitiba x São José dos Pinhais (foto André Bonacin)

 Várzea do rio Iguaçu (foto André Bonacin)

Bolsão de pobreza da vila Audi. (foto André Bonacin)

Ponte sobre rio Iguaçu em Araucária (foto Jeffersonsds)

 Cachoeira do Iguaçu em Balsa Nova PR. (Foto Luiz H. Bassetti)

Cachoeira em Porto Amazonas PR. Logo abaixo deste trecho o rio é navegável. (foto osnyloezer)

 Draga perto de Porto Amazonas (foto mamá)

 Barco em São Mateus do Sul PR (foto Luiz H. Bassetti)

 Porto União - SC. divida com União da Vitória pelo Iguaçu (foto patricschurhaus)

 Rio Iguaçu-Cruz Machado-Paraná (foto rodr_prsznhuk)

 UHE Foz de Areia no rio Iguaçu. (foto Agriconte)

 Usina Salto Segredo (foto Dirceu Gan)

 Ponte da BR 373 sobre o Iguaçu (foto Loivinho A.M.França)

 Salto Santiago na vazante (foto solarsteel)

 Salto Santiago na cheia (foto cjdilger)

UHE Salto Caxias (foto Loivinho A.M.França)

  Margem do Iguaçu onde é e onde não é o Parque Nacional do Iguaçu em Capanema PR. (foto Száller Zoltán)

 E enfim, as famosas Cataratas!

 Canyon do Iguaçu

 Escalando no canyon

 Escalando no canyon 

Canyon!