Blog do Pedro Hauck: montanhismo
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18 de setembro de 2017

Mountain Festival 2017

Rolou em São Bento do Sapucaí o Mountain Festival 2017, um evento que promete ser o maior do montanhismo brasileiro.

Diferente de outros eventos de escalada, o MF abriu as portas para todos os esportes de montanha, não apenas a escalada em rocha, mas também o montanhismo de travessias, de alta montanha, corrida de montanha, mountain bike, voo livre e claro, todas as modalidades de escalada, do boulder ao tradicional.

Casa cheia para assistir minha palestra
Participei como palestrante, onde ministrei a palestra sobre o montanhismo praticado pelos incas há mais de 500 anos atrás. Uma palestra que venho ministrando há algum tempo em diversos locais e que tem agradado muito, sempre com o publico tendo muito interesse.

Também participei como apoiador, como Naturehike, a marca de barracas e equipamentos de camping que somos distribuidores. Novamente foi uma atração, onde o publico pôde ver a qualidade dos materiais. De fato equipamentos que vieram para ficar, com ótima relação de peso e custo. Não é a toa que vem fazendo muito sucesso.

Como ninguém vive só de trabalho, aproveitamos o domingo para escalar e junto com a Maria e o Fábio repetimos a via V de Vitória, conquistada pelo Rafael e o Mario Arnaud. 

Quem nos deu a dica foi o proprio Rafael, que me passou os betas e emprestou um par de estribos e cliff: _ Cara, tem um lance em artificial de cliff, você vai ver só, escala assim e assado e pronto!

Fomos para a parede com as dicas, mas confesso que nem prestei muito atenção. Estava achando que a escalada seria trivial. Como estava também com muitas coisas na cabeça, acabei indo com aquela ideia: _ Escalo o que tiver pela frente!

Enfim, logo na saída da via, encontro um lancezinho um pouco dificil. Porém vejo um furo e penso: _ Tá aí o furo do cliff! Passei com os estribos.

Após este lance, fiquei tranquilo. pensando que o pior havia passado. Assim fomos passeando pela parede. Numa cordada de três, alternava as guiadas com o Fábio e a Maria, com unha encravada, ficava no meio.

Eis que chego na base de um paredão negativo com muitas foliações. Observo e acho que é um lancezinho factível, pois havia muitas agarras. Porém, era a vez do Fábio escalar, que foi com cautela.

E o Fábio foi reclamando, claro, que no jeito do Fábio, bem silencioso. Ele reclamar de algo é por que este algo é realmente dificil. 

Após tentar de inúmeras vezes, vou dando a dica dele subir segurando as costuras e assim, escalando, costurando e escalando novamente ele venceu o lance.

Quando entrei na parede é que me dei conta de que aquele era o lance dos estribos, que o Fábio fez parcelado e sem juros. Tá bem o piá!

O Mountain Festival foi um ótimo evento! Vida longa ao Festival!

Barracas Naturehike

Saidinha que artificializei o lance, ou seja, roubei!

Maria escalando.

Fábio, Maria e eu com o Baú atrás.

Eu dando segurança para a Maria

Fábio e a Maria vindo atrás. Eu na parada indo de terceiro nesta enfiada.

Palestra sobre o Montanhismo dos Incas.

31 de maio de 2017

Aonde deixamos as cinzas do Parofes

Parofes um pouco antes de morrer

No dia 10 de Maio de 2014 nosso amigo Paulo Roberto Felipe Schmidt, o Parofes, nos deixou.

Nos anos que se seguiram, deixamos suas cinzas espalhadas em várias montanhas nos Andes e no Brasil também, com histórias bem divertidas. 

Bom, você pode pensar que é meio mórbido falar de algo divertido no meio de um fato tão triste. Porém a verdade é que o Parofes soube encarar muito bem o fato de estar perto do fim, sendo inclusive bem humorado.

Antes dele morrer conseguimos nos despedir. Um privilégio dizer tchau para alguém que nunca mais você verá em vida. Na despedida ele continuou sendo bem humorado e me pediu para que eu depositasse as cinzas dele em Agulhas Negras. Perguntei se poderia jogar em montanhas nos Andes, e ele disse que sim, mas que não podia esquecer de de jogar em Agulhas, que era a montanha favorita dele.

A primeira parte eu cumpri. Joguei as cinzas dele em 32 montanhas diferentes (ver lista abaixo). Porém faltou jogar em Agulhas Negras. 

Ele me disse que, se eu não jogasse, ele iria puxar meu pé para debaixo da cama. Ele também não cumpriu....

Passando pelo Everest, me deparei com o memorial dos mortos na montanha. Havia gente famosa, como Rob Hall, Scot Fischer, Babu Sherpa e outros. Ficou agora dois totens a mais. Uma para o Parofes e outro para o Davi Marski, que morreu meses mais tarde num trágico acidente com abelhas em Andradas.

Assista ao vídeo:



Montanhas onde depositei as cinzas do Parofes:

1. Chaupi Orco: 6044 metros; Bolívia/Peru
2. Chachacomani: 6074 metros; Bolívia
3. Chearoco: 6.127 metros; Bolívia
4. Acotango: 6052 metros; Bolívia/Chile
5. Capurata: 6008 metros; Bolívia/Chile
6. Guallatiri 6071 metros; Chile
7. Uturuncu: 6008; Bolívia
8. Macon; 5520; metros; Argentina
9. Acay: 5745 metros; Argentina
10. Quewar: 6150metros; Argentina
11. Socompa: 6051 metros; Argentina/Chile
12. Mercedário: 6735 metros; Argentina
13. Tres Cruces Central: 6766 metros; Chile/ Argentina
14. Vicunas: 6078 metros; Chile
15. Ojos del Salado: 6890 metros; Chile/Argentina
16. Huayna Potosi: 6088 metros; Bolívia
17. Illimani: 6440 metros; Bolívia
18. Famatina: 6100 metros; Argentina
19. La Brea: 5225 metros; Argentina
20. Lagunas Bravas: 5350 metros; Chile
21. Chifu: 5040 metros; Chile
22. Lomas Coloradas: 5300; Chile (conquista)
23. El Morado 5290 metros; Chile (conquista)
24. Sierra de Aliste: 5200 metros; Chile
25. Vulcão Copiapó: 6050 metros; Chile
26. Patos: 6288; Argentina / Chile
27. Sierra Nevada: 6137 metros; Chile/Argentina
28. Passo Cerrado: 5079 metros; Chile
29. Parofes: 5845 metros; Argentina (conquista e nome em homenagem ao Parofes)
30. Baboso: 6080 metros; Argentina
31. Bonete Chico: 6779 metros; Argentina
32. Veladero: 6430 metros; Argentina


14 de fevereiro de 2016

Escalando as 5 montanhas mais altas dos Andes e definindo novo projeto.

Ao finalizar minha ultima expedição na região da Corona Del Inca, em La Rioja, Argentina contactei o historiador de montanha Rodrigo Granzotto Perón. O Rodrigo é quase como uma “Miss Hawley” do Brasil. Ele coleta informações e faz estatísticas de ascensões nas grandes montanhas do mundo e faz um trabalho muito interessante registrando ascensões brasileiras nos Andes.

Com o Rodrigo descobri que das 3 montanhas que escalei com o Vinicius Vieira, Paula Kapp e Greissy Caminski na Argentina, duas eram inéditas para brasileiros, O Cerro Baboso, de 6080 metros e o Bonete Chico, que com 6779 metros é a quarta montanha mais alta dos Andes e também nunca havia recebido um montanhista tupiniquim em seu topo.

Acabamos por escalar a montanha mais alta dos Andes em ascensões brasileiras.

Não que esteja me gabando pelo feito. É apenas uma estatística, uma consequência de minha dedicação ao montanhismo, de dar preferência a montanhas remotas e desconhecidas em detrimento das famosas e super frequentadas. 

Descobri também que é a segunda vez que realizo tal proeza, já que em 2013, quando escalei o Pissis junto com Waldemar Niclevicz também escalamos a montanha mais alta dos Andes que também era inédita a brasileiros e que ao longo de meus 18 anos de montanhismo fiz 17 montanhas de 6 mil metros inéditas a montanhistas de meu país.

Também acabei de me tornar o primeiro brasileiro a escalar as 5 montanhas mais alta dos Andes: 

1) Aconcagua – 6962m. Escalei em 2002 junto com Maximo Kausch, sem mulas, sem guias e sem juízo.
Aconcagua em 2002 com Maximo Kausch

2) Ojos del Salado,6883m. Fiz cumes duas vezes, a primeira em 2013 com Waldemar Niclevicz e a segunda guiando um grupo pelo GentedeMontanha.
Ojos del Salado em 2013 com Waldemar Niclevicz

3) Pissis, 6793m. Cume em 2013 com Waldemar Niclevicz
Pissis com Waldemar Niclevicz em 2013.
4) Bonete Chico, 6779m. Cume em 2016 com Vinicius Vieira, Paula Kapp e Greissy Caminski. 
Bonete Chico com Greissy Caminiski, Vinicius Vieira e Paula Kapp.

5) Três Cruces Sur, 6749m. Cume em 2013 com Waldemar Niclevicz.
Três Cruces com Waldemar Niclevicz.

Agradeço enormemente aos meus parceiros de montanha que possibilitaram eu conseguir estas montanhas principalmente Waldemar Niclevicz e Maximo Kausch.

Aproveito para divulgar que meu próximo projeto é escalar as 10 montanhas mais altas dos Andes. Um projeto que foi realizado por poucas pessoas e que estou muito próximo de concluir.

1) Aconcagua - Já realizado
2) Ojos del Salado - Já realizado
3) Pissis - Já realizado
4) Bonete Chico - Já realizado
5) Tres Cruces Sur - Já realizado
6) Huascarán Sur 
7) Llullaillaco - Já realizado
8) Mercedário - Já realizado
9) Walther Penck 
10) Huascarán Norte

A lista que sigo é a que foi gerado pela pesquisa de Maximo Kausch e de Suzie Imber que foi obtida através de pesquisa com dados SRTM. A lista está disponível aqui.

20 de julho de 2015

Fotos da Serra Fina

Este álbum de fotos é a travessia da Serra Fina realizada no feriado de Corpus Christi de 2015, durante a saída guiada realizado pela Agência GenteDeMontanha. Para ler o relato completo, acesse minha coluno no site AltaMontanha: Sherpas na Serra Fina.

Links relacionados:


Jurandir no começo da subida para o Pico do Capim Amarelo 
Vista para a Mantiqueira ao Sul.

Vista para o vale do Paraíba.

Jurandir na subida do Capim Amarelo.

Trecho de crista da Serra Fina que dá o nome à travessia.

Descansando no Maracanã, onde passamos a primeira noite.

Descansando no Maracanã, onde passamos a primeira noite da travessia.

Eu e o Pico da Pedra da Mina ao fundo. Montanha mais alta da Mantiqueira.

Pedra da Mina

Jurandir no cume da Pedra da Mina

Deixando as cinzas do Parofes no cume da Pedra da Mina

Vista para o vale do Ruah desde o cume da Pedra da Mina

Pedra da Mina vista desde o vale do Ruah

Nosso acampamento no vale do Ruah.

Todos reunidos no acampamento no vale do Ruah

Vale do Ruah com neblina e molhado pela manhã.

Montanhas rochosas vistas do Cupim de Boi.

Jurandir no cume dos Três Estados.

Acampamento na base do Alto dos Ivos

Acampamento na base do Alto dos Ivos
Subindo o Alto dos Ivos

Subindo o Alto dos Ivos

Amanhecer no Alto dos Ivos

Amanhecer no Alto dos Ivos

Amanhecer no Alto dos Ivos

Amanhecer no Alto dos Ivos

Amanhecer no Alto dos Ivos

Bruno Masredon

O grupo reunido no Alto dos Ivos. Fechando a travessia com chave de ouro.

Maria Ulbrich

Eu no Alto dos Ivos

Os guias da travessia da Serra Fina: Maria, eu, Maximo Kausch, Bruno e Jurandir.

Jurandir Constantino

Descendo para o Sitio do Pierre.

Montanha e a lua.

20 de maio de 2015

Um ano sem Parofes

O dia 10 de maio de 2014 foi um sábado frio e chuvoso em Curitiba. Eu estava na casa da Maria, em frente ao fogão à lenha, esperando não lembro o quê. Com o celular na mão, envio uma mensagem para a Lili, esposa do Parofes, perguntando como ele estava... 

Eu pressentia algo de ruim no silêncio de dias sem comunicação. Sabia que ele estava no hospital muito debilitado e já até havíamos nos despedido. A mensagem, que levou cerca de meia hora para ser respondida, pôs fim a dúvida:

“Pedro, o Parofes acabou de falecer”.

Eu já havia perdido avós e gente mais velha na família. Apesar de estar esperando sua morte, eu nunca havia sentido um golpe no estomago daquele jeito. O Parofes morreu. Ele não mais existe, acabou as conversas, as caminhadas. Uma pessoa, cheia de vida agora não era mais feita de carne e osso.

Pouco tempo depois fui a São Paulo e visitei a Lili no apartamento em que eles viviam e que há muito eu frequentava. Senti o vazio no lugar...

Ela me deu alguns pertences seus, alguns dos quais eu guardo até hoje, como um relógio e a blusa de frio que ele tanto gostava e que já fiz alguns cumes andinos com eles. Outra coisa que ela me deu foi uma caixa de madeira lustrada e fechada com dois parafusos. Dentro estavam suas cinzas.

Ela me avisou que antes de Parofes morrer, ele pediu para ela que eu jogasse suas cinzas no alto das Agulhas Negras. Nem precisava pedir, pois quando ele ainda estava vivo eu já havia prometido fazer isso:

“Se tu não me jogar na porra daquele cume, eu vou puxar tua perna pra baixo da cama à noite!” Disse rindo no dia em que nos despedimos no hospital.

Até agora eu não joguei, embora eu tenha estado em Agulhas uma vez. Decidi que lá seria o último lugar que ele seria deixado...

Antes disso, resolvi jogar as cinzas do Parofes em todas as montanhas que eu escalasse e não foram poucas. Até agora foram 15 montanhas nos Andes, 13 delas acima de 6 mil metros e em 3 país diferentes. Ele também foi jogado pelo Max na base do Annapurna, montanha com mais de 8 mil metros localizada no Nepal. A história dos locais onde as cinzas de Parofes ficaram até agora será publicada na revista Go Outside em breve.

Mas chegava a data do primeiro aniversário sem ele e não sabia como fazer uma homenagem digna. Aliás, depois de tantas montanhas escalando juntos, o que mais poderia fazer?

Decidi então chamar o maior número de amigos e subir uma montanha singela e bonita. Uma montanha que aliás, foi a primeira que subimos juntos, isso no ano de 2008: O Camapuan, na Serra do Mar paranaense.

Esta escalada que fizemos juntos, 8 anos atrás, foi marcado por ser uma das piores roubadas que fizemos juntos. O Parofes chegou de São Paulo pela manhã e fomos direto pro morro debaixo de uma chuvarada horrível. Daquelas chuvas finas geladas e intermináveis que o Julio Fiori costuma chamar de “Chuva boa para morrer na serra”.

E não deu outra. Até chegamos no cume, mas foi uma péssima ideia acampar lá. Nos arrependemos e voltamos todo encharcados, com água até os joelhos na trilha, e fomos dormir no refúgio 5.13 em Quatro Barras.

7 anos depois, minha homenagem continuava em curso, apesar da previsão de tempo não ser das melhores. Saímos de Curitiba, Maria e eu, às 9 da noite rumo à serra com gotas d’água no para-brisa, para somente começar a caminhar às 22 horas, com bastante umidade no ar.

A subida levou 3 horas, como de costume. E como de costume choveu como um “dia bom para se morrer na serra”. Como no primeiro dia em que eu e o Parofes subimos a montanha e como no dia em que ele morreu...

A homenagem, no dia seguinte, foi singela e quase solitária, pois as poucas pessoas que foram (Greissy, sua sobrinha de 9 anos e Victor Dossi) acamparam no Tucum e nos desencontramos. No Camapuan estava só eu e a Maria, baita companheira para enfrentar aquele frio úmido. Deixei um punhado de Parofes lá em cima. O vento, neste momento, jogou suas cinzas , que caiu sobre a minha namorada. Acho que ele deve ter dado risada lá em cima.

Foi uma subida e descida sofrida e perrengosa, um dia bom pra morrer na serra.

Dia bom pra morrer na serra.

AcamParofes.

Com Parofito.

Deixando o Parofes no Camapuan.

Passeio de índio.

Maria pensando: O que eu estou fazendo aqui?

Nevoa na mata.