Blog do Pedro Hauck

4 de maio de 2017

Kala Pattar a melhor vista do Everest

O dia anterior não foi bem sucedido a todos. Como liderei o grupo dos mais rápidos, apenas soube depois o que houve com os mais lentos.

Na altitude nem todos aclimatam igual. Acostumar-se com a altitude varia de acordo com cada organismo. O Tiago de Brasília, por exemplo, já havia tido um edema no Huayna Potosi e nem chegou a Lobuche. Teve que descer antes. Já o doutor Bruno, deu uma dividida com um monge no jogo em Tengboche. Deus castigou e ele passou mal.

Aqueles que não conseguiram ir ao base camp,  puderam escolher entre ir ou subir o Kala Pattar. Por isso o grupo que ascendeu o mirante foi pequeno.

Saímos ainda de madrugada com um frio bem forte. Mas bastou apertar os passos para o corpo esquentar. Nem todos, é claro, pois há gente mais friorenta que outros.

No geral a subida foi bem tranquila, todos chegaram ao topo em 2 horas. Vários grupos foram chegando e o número de pessoas não parava de crescer.

A vista justificou tudo. Estávamos em frente ao colossal Everest. Finalmente pudemos aprecia-lo bem, podendo ver também o Lhotse, Nuptse e claro o Pumori.

Apesar de algumas pessoas falarem que o Kala Pattar é uma montanha, ela na verdade não tem independência para isso. É na verdade uma crista do Pumori.  Em Sherpa seu nome significa "morro negro". De fato é isso que o Kala Pattar, um morro de cor escura que é um excelente mirante do Everest, só com 5500 metros de altitude.

Para quem conhece a Serra do Mar paranaense, o Kala Pattar está para o Everest como o Rochedinho está para o Marumbi. Salvo todas as proporções, é claro.

Não passamos outra noite em Gorak Shep, ao invés disso aproveitando que chegamos cedo ao refúgio, pegamos todas as coisas e fomos pernoitar em Pheriche, num lodge bem mais confortável.
De Pheriche, no dia seguinte, o iniciamos nosso regresso,  voltando a trilha até Namche, depois Phakding e finalmente Lukla onde o grupo tomou o avião de volta. O grupo, não eu.

Fiquei sozinho para dali encarar um desafio, escalar minha primeira montanha no Himalaia.
Cume do Kala Pattar, Pumori e Everest
Everest, Nuptse
No topo do Kala Pattar e crista do Pumori
Subida ao Kala Patar
Everest
Everest e Nuptse

2 de maio de 2017

Chegada ao acampamento base do Everest

Deixamos Lobuche bem cedo rumo à Gorak Shep. Apenas uma pessoa do grande grupo não conseguiu ir adiante e teve que descer a Pheriche. Tiago de Brasília não conseguiu se aclimatar e um sherpa o levou até aquela vila onde ele poderia melhorar, uma vez que lá um hospital que é centro de referência em altitude.

O resto do grupo continuou firme e parte alcançou Gorak Shep em apenas uma hora e meia. Este vilarejo é um complexo de lodges que é o último ponto antes do acampamento base, que fica em cima do gelo e por isso não tem como ter construções permanentes.

Com os mais rápidos, entrei em nosso lodge e agilizei uma refeição. Agrupei 15 pessoas que no final deu 19 e partimos rumo ao EBC.

O caminho é praticamente uma caminhada em moraina, ou seja em pilhas de pedras que foram levadas pela geleira no passado.

Por conta disso, o terreno é bastante irregular e o passo fica mais lento.

No topo da moraina,  após cerca de 1 hora de caminhada, consegui ver o Everest pela primeira vez. Despontava por trás do Nuptse  sua inconfundível pirâmide negra.

Pouco depois, enfim, descemos até o glaciar do Khumbu e chegamos na entrada do acampamento, onde havia um chortén cheio de bandeiras de oração e cheio de gente também.

Saí um pouco da muvuca e fui admirar o local do topo de uma colina. Nós trekkers não temos permissão para ir muito além deste ponto. Me contentei a admirar a paisagem somente.

Parecia surreal estar ali. Um local que desde criança eu lia a respeito. Porém, como montanhista, não tem como não dizer que é um tanto quanto decepcionante não poder  ir além, chegar na base da cachoeira de gelo, ver o Lhotse e tentar subir a montanha mais alta do mundo.

Apesar da massificação do Everest, ela não deixa de ser uma montanha que atrai  montanhistas. Porém o alto custo das expedições limita quem tem condições financeiras para tal. Como há muitos trekkers e curiosos, ficaria também complicado se todos tivessem acesso.

Volto a nosso lodge feliz de pelo menos ter chego à base da montanha mais famosa do mundo. Ainda mais de ter levado muito gente para aquele lugar mágico e mais ainda sabendo que essa expedição fez a diferença para muitos sherpas do povoado de Pattle, que agora tem escola para suas crianças.

1 de maio de 2017

O caminho de Lobuche

Saímos enfileirados de Dingboche e após vencer um breve passo, uma planície se espraia, permitindo que andássemos em grupo conversando.

Até aí a maldição do Monge não recaiu sobre a cabeça do Bruno e nem do japonês.

Todos caminham num bom ritmo até que a trilha se afina novamente. Lá paro e noto a bela paisagem que o Cholatse, uma montanha de 6 mil metros domina.

Cruzamos um rio e facilmente chegamos no local de nosso almoço: Dougla.

Fizemos uma ótima refeição. Todos descontraídos batem papo e se hidratam tomando suco quente, uma especiaria culinária local. Mas noto que Maximo demora para chegar. Infelizmente alguns clientes não estavam se aclimatando bem e por isso andavam bem lento. Seria a dividida com bota a culpada?

Como já estávamos há muito tempo esperando,  parto na frente com alguns sherpas e clientes e logo de cara enfrentamos uma grande subida, disputando espaço com yaks, dzopkios e carregadores.
A subida é longa, porém cadenciada. Com ritmo conseguimos vence-la e no topo percebemos que estávamos num memorial aos mortos do Everest.

Havia uma grande stupa, cheia de bandeiras de oração. Também haviam muitos totens simbolizando um morto na montanha. Pude ver o totem de Scot Fischer e de outros falecidos famosos, como Babu Sherpa, até hoje o homem que mais vez esteve no topo do mundo.

Sem perder tempo, ergui mãos dois totens no local, um em homenagem ao Parofes e outro ao Davi Marski.

Mesmo que eles não tenham morrido no Himalaia,  eles eram  mais montanhistas que muita gente ali.
Os totens de meus falecidos amigos foi bastante diversificado. Havia filito, milonito, gnaiss e anfibolito.  Só ali percebi que estava em uma moraina lateral. Que é o depósito da geleira do Khumbu, que desce direto do Everest. Daí toda essa variedade de rochas.

Dali não precisou muito tempo para enfim chegamos a Lobuche, um vilarejo que fica na base de uma montanha de nome homônimo, onde a Karina Oliani e Marcelo nos esperava. Eles haviam subido lá no dia de nosso descanso para agilizar a aclimatação para acenderem o Everest depois.

Após uma pausa para chá e de deixarmos as mochilas e duffels no quarto do lodge, fui dar uma volta com o Andrei, Jaime e Cláudio. Subimos a moraina e de lá tivemos uma linda visão para o Pumori, Lingtren e Nuptse. Na volta encontramos a Ilana toda encolhida numa pedra, protegida do vento admirando a mesma paisagem.

Estas montanhas fecham o vale do Khumbu. Dali não tem para onde ir senão subir a cachoeira de gelo do khumbu e escalar a montanha mais alta do mundo.

Tobuche (esquerda) e Cholatse, direita
Dzopikios
Pumori no fundo do vale e Nuptse na direita
Dougla e Pumori

30 de abril de 2017

Neve na trilha

O dia amanheceu preguiçoso no lodge em Tengboche. Mas foi olhar pela janela da construção para  ter uma grande surpresa: tudo estava branco!

Tomamos nosso café da manhã e já nos colocamos à marcha. A nevasca deixou tudo muito mais bonito e mágico.

O primeiro trecho era composto por uma Matinha. Teríamos que caminhar por seu sub bosque. O branco da neve deu uma cara de filme de conto de fadas. Os locais caminhando de um lado a outro e a arquitetura medieval das casas eram ingredientes para essa sensação.

Chegamos no fundo do vale. O Dudh Khosi estava com uma cor celeste. Tivemos que esperar uma caravana de dzopkio cruzar uma ponte suspensa. Foi outra cena de filme.

Paramos para almoçar em Shomane. Parte do grupo demorou a aparecer e os que vieram antes começaram a passar muito frio. Mal terminei de comer e já voltei a caminhar.

Cruzamos a cidade de Pengboche e entramos num planalto. Estava tudo branco e quando percebi estava andando no meio de monges tipicamente vestidos e uma caravana de yaks. O sino no pescoço deles ditaram meu ritmo até perto de Dingboche, nosso destino.

Ficamos num lodge modesto, porém muito confortável para a região. Comemos muito bem e ficamos tranquilos, pois o próximo dia era de descanso.

Mesmo assim todos despertaram cedo. O dia amanheceu lindo com céu azul pela primeira vez. Podíamos ver e nos impressionar com a beleza e opulência do Ama Dablan em nossa cara.

Eu queria subir algo para melhorar a aclimatação. Acabou que o grupo todo gostou da minha idéia de subir uma montanha de 5 mil metros e foi o passeio do dia.

No entanto um vento gelado soprou forte das grandes montanhas. Este vento mandou para longe as nuvens, mas impediu que subissemos além dos 4700 metros, mas ok.

Voltei ao hotel e deixei o tempo passar. Conhendo a vila e sua paisagem.  No final até me encontrei com a Lisete Florenzano que também estava guiando um grupo.

No entanto nem todos estavam bem. Alguns clientes não se deram bem com a altitude e sofreram bastante, mesmo com os dias de descanso e a ascensão lenta e gradual. Thiago era o quem menos se aclimatou. O dia seguinte seria uma provação para ele.

Yaks na trilha

28 de abril de 2017

Tengboche o mosteiro mais importante do Khumbu

Após um dia de descanso em Namche enfim partimos da capital sherpa para adentrar mais no vale do khumbu.

Deixamos a cidade pra trás com o belo mirante que dava para ver o Kongde e o Thamserku, duas belas montanhas de 6 mil metros. Porém uma poeira encobriu o céu e não pudemos ver o Ama Dablan, que no alto de seus 6817 metros é a montanha mais impressionante da região.

No entanto o caminho não deixa de ter seus encantos.  Religiosos, os locais entalharam nas pedras mantras budistas. Stupas, muros de orações e as próprias construções no caminho são belezas do local.

Após um trecho sem desníveis chegamos em Sanasa, onde a trilha se divide. Para cima se vai para Gokio e para baixo é o caminho normal para o base do Everest.

Ali a trilha desce vertiginosamente. Rodrigo Madá,  um colega de Curitiba contou 119 curvas até o rio que é atravessado por uma bela ponte suspensa.

Pouco adiante paramos para almoçar em  Phungitanga num agradável restaurante na beira trilha.
O tempo até então agradável começa a dar cara que vai mudar. Nuvens escuras fecham o céu e um vento gelado obriga a todos se agasalhar.

Reúno um grupo de pessoas e decido partir antes que todos terminassem a refeição. A idéia era se aquecer e chegar em Tengboche antes da chuva.

Dali a trilha ganhava altura bruscamente, em zigzags intermináveis. Bem alimentado, não tive dificuldades até enfim chegar no portal do mosteiro onde Raats, um de nossos sherpas nos esperava assinalando para onde iríamos dormir.

Entrei no lodge, tomei um chá e fiquei sabendo que estava ocorrendo um ritual no mosteiro. Fui até lá ver.

A sala onde estava os monges estava cheia, com vários membros de nosso trekking também.
Encostei numa parede e comecei a ver o ritual. Os monges entoavam mantras, tocavam sinos e as vezes ficavam em silêncio.

De repente mais gente chegou e comecei a ficar incomodado. Ao ponto de aproveitar a carona de algumas pessoas que estavam saindo para sair também.

Preferi ficar ao ar livre fotografando e observando a bela construção budista por fora.

Foi quando alguns membros de nosso trekking saiu para jogar bola num campinho onde monges devidamente vestidos batiam um bolão. Eles gostaram de quando os brasileiros chegaram e nos chamou para a pelada.

Fiquei no começo só observando o jogo surreal.  Mas a altitude cobrou seu preço ao Felipe  (o japonês de nosso grupo) e eu entrei em seu lugar.

Perdemos de 1 a zero. Deus deve ter ajudado eles. E também punido o Bruno que deu uma entrada num pequeno mongezinho. Bruno vinha bem até então, mas depois da dividida com a bola sua aclimatação piorou muito.

O jogo acabou por que enfim começou a nevar.

Mosteiro de Tengboche
Jogo de futebol