Blog do Pedro Hauck

11 de janeiro de 2015

Escalando o Quewar um dos mais belos 6 mil do norte argentino


Poucas pessoas já ouviram falar do Quewar e confesso que só fiquei sabendo que esta montanha de 6154 metros de altitude existe há poucos anos atrás. A primeira vez que vi esta montanha foi em 2012 durante a expedição Mundo Andino com o Waldemar Niclevicz em 2012. Depois em 2013 eu cogitei escalar ela com o Luiz Antoniutti, mas devido ao mal tempo, mal pudemos ver a montanha entre as nuvens.  Finalmente agora em 2015 conseguimos tentar.

O acesso ao Quewar se dá do povoado de Santa Rosa de los Pastos Grandes, no meio da Puna. Dali há uma estradinha que penetra num vale que tem suas nascentes na base da montanha. É por este vale que se dá o acesso, um vale com muita água e vegetação que é um oásis no meio do deserto e que por isso é também um local com muita vida selvagem. Por conta destas característica, a aproximação e a escalada do Quewar foi muito prazerosa.

Saindo de Santa Rosa, o jipe consegue nos poupar uns sete quilômetros de caminhada, nos deixando num local onde o vale é todo ocupado pelas Vegas, uma vegetação campestre que floresce em vales úmidos nos Andes. Dali começamos à pé, pedindo licença às lhamas que pastavam livremente.

No primeiro dia caminhamos cerca de 6 quilômetros, até um vale protegido do vento. Sabíamos que aquele dia iria nevar à noite e de fato o tempo piorou à tarde. No dia seguinte, pudemos observar que o cume da montanha havia ficado branco, mas devido ao calor, a neve acabou derretendo rápido.

No segundo dia caminhamos mais uns 7 quilômetros. Apesar de amanhecer com tempo bom, ao logo do dia as nuvens foram fechando até que pegamos uma forte nevasca. No itinerário decidimos ir até mais próximo do cume, indo acampar num local há 5100 metros, aplainando uma plataforma para a barraca. O problema foi que ali já não havia água e tivemos que levar o precioso liquido na mochila por uns 3 ou 4 quilômetros.

Ao montar a barraca neste acampamento avançado, o tempo que já não estava bom piorou e nevou bastante à noite. Por sorte, a nevasca não avançou pela madrugada e quando acordamos às 4 da manhã para sair para o cume, o tempo estava limpo e não ventava, embora a paisagem estivesse pintada de branco.

Caminhamos cerca de uma hora com a luz da lua cheia, até que o sol pela manhã apareceu para aquecer o caminho e nos mostrar como a puna estava bonita de branco, espetáculo que não durou todo o dia.

Com o ganhar da altitude, a Maria foi perdendo o ritmo e fiquei incentivando-a a continuar. Acabamos indo mais devagar que o planejado e depois das 10 da manhã nuvens surgiram do leste e começaram a fechar o topo da montanha.

Já na parte final, entramos nas nuvens e continuamos nossa progressão. Como o tempo ali não é tão implacável, acabamos chegando num falso cume fora das nuvens que impediam nossa visão. Sorte por um lado, azar por outro, pois não tem nada mais chato numa montanha longa depositarmos nossas esperanças e forças para chegar num cume e descobrir que o cume verdadeiro fica mais adiante.

Surpresa, no entanto, foi encontrar ruínas incas quase no topo do cume verdadeiro, uma construção de pedras bastante arruinada pelo tempo que até escadas tinha. No cume do Quewar, não sei exatamente se nesta ruína, havia uma múmia inca. Profanadores de tumbas à busca de tesouros acabaram explodindo o local onde estava esta múmia a procura de ouro, e terminaram por destruir o patrimônio arqueológico.

No cume ainda pudemos ver as montanhas da região nevadas, como o Tuzgle, Acay, Cachi e outros, mas foi um fenômeno que durou pouco e no regresso ao acampamento toda aquela neve já havia derretido pelo calor do verão.

O Quewar foi uma grata surpresa, uma montanha bela, acessível, com história e riqueza arqueológica e paisagística, não sei por que tão pouco escalada e conhecida.

:: Continua...

Pedindo licença para as Lhamas

Vale que dá acesso ao Quewar

Belo vale do Quewar

Flores da Vega

Aproximação ao Quewar
O cume do Quewar sobressai ao vale que dá acesso à montanha
Primeira acampamento à 4500 metros

De olho em você....
Nevasca na aproximação.
Acampamento alto a 5100 metros 
Vista para o Quewar nevado durante a madrugada

Primeiras horas da manhã. 
Vista para o Acay (no fundo) todo nevado.
Rumos ao cume
Indo ao cume
Campo de penitentes
Parofito no cume.
Vista do cume para a Puna, onde se enxerga ao fundo o Cerro Macón
Grande cume do Quewar
Jogando as cinzas do Parofes
Maria e seu primeiro 6 mil.
Eu e Maria no cume.
Ruínas incas.

7 de janeiro de 2015

Escalando o Nevado de Acay - 5770

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:: Leia a postagem anterior

A primeira vez que vi o Nevado de Acay foi em Julho de 2007, quando passei por Salta a caminho da Bolívia junto com o amigo Marcio Carrilho, numa expedição que chamamos de Kollasuyo, que era o nome do antigo território incaico do sul que abrange esta região e também a Bolívia.

Subimos a Puna pela Ruta 40, através do Valle de Calchaqui que quase chega aos 5 mil metros na chamada Abra del Acay, que é um colo desta montanha onde se chega mais alto numa estrada argentina. A experiência, no entanto, não foi a melhor, pois com a pressão e a força que colocamos no motor, todas as mangueiras do sistema de arrefecimento do Corsa do Marcio estouraram e por sorte não fundimos o motor.

Na descida em Salta, depois que arrumamos o carro, encontrei uns andinistas sem querer num supermercado e eles me contaram o caminho para chegar ao cume, que não era pela Abra, mas sim por um caminho mineiro que começava na estação abandonada de Muñano do Tren a Las Nubes. Foi procurando este caminho que georreferenciei o tracklog para chegar no Acay nesta expedição.

Seguindo este tracklog, no primeiro dia de 2015, fomos eu e a Maria ganhando altura com o Jimny, sem saber se aquele era o real caminho. Após atravessar um pequeno rio, o caminho se complica e é necessário usar a reduzida. Em diversos momentos a trilha 4x4 fica inclinada e parece que o carro vai cair tombando ladeira abaixo. Por este motivo não fomos até o final da trilha, pois ela não aparentava ser possível chegar ao fim. Por este motivo, aliás, tracei uma rota até o cume subindo por uma crista que começava ao lado do local onde acampamos, a 4700 metros de altitude, de onde pudemos ver uma tempestade elétrica se formando atrás do Nevado Chañi, na divisa de Salta com Jujuy.

Por conta da altitude, não tivemos a melhor noite da viagem, aliás, foi uma das piores. Acabou que pela madrugada não nos animamos a subir o Acay, mas pela manhã acordamos mais dispostos e mesmo tarde decidimos ir ao cume. Eram 9:45 AM.

Sem achar um caminho humano pela rota que tracei, fomos subindo por trilhas de vicunhas, alcançando os 5 mil metros onde cheguei no começo da crista, que era bastante escarpada e cheia de rochas soltas. Tentando evitar o “acarreo”  fui contornando a crista e me dou de cara com a estrada que achei não valer a pena subir e logo mais encontro à frente a tal mina que era o final do caminho. Lá havia um acampamento e dali uma trilha visível. Georreferenciei errado a rota da montanha.

Andava rápida na ânsia de encontrar um caminho e por isso deixei a Maria atrás cansada. Quando ela me alcançou falei que não sabia onde era o caminho e mostrei as possibilidades. Ela calmamente me falou para irmos lá onde eu achava e assim, já tendo certeza que iríamos apenas “passear” por ali, já era meio dia. No entanto, aquele caminho se mostrou se a rota de fato, pois encontrei varias marcações de caminho, embora não tenha achado mais pegadas.

Este caminho nos levou até um vale que subia entre montes mais altos. Subindo este vale, chegamos em um colo e pelo GPS eu soube que a crista na esquerda deste colo levava direto até o cume. Apesar do GPS mostrar isso, no olho esta rota parecia mais difícil, pois a crista se inclinava em determinado momento e haviam muitas rochas soltas. Mesmo assim, continuamos.

No começo a crista era fácil, mas ao se inclinar havia muita rocha solta, rochas grandes que ficavam empilhadas uma sobre outra. Apesar do caminho ruim, fomos buscando uma maneira de ascender por ali. Por sorte os blocos eram grandes e pesados o suficiente para não ficarem escorregando com a gente como nos acarreos. O problema seria se eles se movessem, o que acabou não ocorrendo, ainda bem.

Assim vencemos este trecho ruim e acabamos chegando na região do cume do Acay, que é grande e plano. Lá vimos um monte de rochas empilhadas e no meio delas uma cruz. Era o cume 5770 metros.

A descida foi tranquila, mas devido ao horário que começamos a ascensão, chegamos no acampamento no anoitecer e acabamos dormindo por lá mesmo, passando nossa segunda noite a 4700. 

O Acay geralmente é mais fácil, se você conhece o caminho, no entanto se perder e achar o caminho e ainda fazer o cume, quando você achava que iria apenas passear não é nada mal.

:: Continua...

O Nevado Acay nevado no ano passado. Ele é assim, ora seco, ora nevado...

Aproximação do Acay em 4x4.

Nossa base no Acay

Vista para o Nevado Chañi a noite com tempestade elétrica.

Vista noturna para o Chañi

Vista para o Acay à noite.

Saindo para o cume pela manhã.

Ruínas a 4800 metros e o Cerro Quewar no fundo.

Maria no primeiro trecho pela manhã

Vista para o Vulcão Tuzgle e Maria na transversal que fizemos até onde seria o começo da caminhada.

Inicio verdadeiro da caminhada ao cume. Aqui quase desisti.

Maria subindo a canaleta que leva à crista do cume

Maria e a crista do cume. Bastante rocha solta.
Vista para o vale de Cachaquie e o Nevado Cachi.

Subindo a crista do cume.

Vista para onde está o cume verdadeiro

Maria chegando ao cume.

Maria e eu no cume do Acay com o Parofito.

Parofito no cume do Acay

Jogando as cinzas do Parofes no cume do Acay

Maria fazendo pose em seu segundo cume andino.

5 de janeiro de 2015

Escalando o Macón a montanha sagrada de Tolar Grande


Conheci o Macón meio sem querer em dezembro de 2012 quando estive pela segunda vez em San Antonio de los Cobres. Estávamos eu, o Waldemar e a Silvia almoçando em um restaurante quando ao ler um jornal local vi a notícia que a comunidade Kolla de Tolar Grande Grande tinha realizado sua ascensão anual à montanha, na hora pensei que esta montanha poderia ser uma boa alternativa para fazer uma aclimatação para escalar montanhas mais altas da região.

No ano seguinte, com Luiz Antoniutti e Luca, chegamos a ir em direção à esta montanha, mas o infortúnio de ter 2 pneus furados no mesmo dia nos levou ao Chile para aclimatarmos para escalar o Llullaillaco no Sairecabur e Licancabur.

Como não gosto de repetir montanhas e sempre conhecer coisas novas, neste ano escolhi o Macón para ser a primeira montanha da expedição Puna de Salta. Primeiro por sua facilidade técnica e altitude e depois por que o tempo que gastamos chegando em sua base já é parte da aclimatação (ler o ultimo post: Caminho de Tolar Grande).

Seguindo nossos planos, acordamos cedinho no dia 31 de dezembro para fazer nosso ataque ao Macón. A aproximação de jipe, desde Tolar Grande é fácil, pois a estrada é melhor do que a que liga San Antonio a Tolar, no entanto em determinado momento o caminho para a montanha deriva para a direita e aí ele se torna uma pegada que dada a inclinação e a altitude, é necessário ligar a reduzida. Assim, por volta das 8 da manhã, chegamos ao local onde se deixa o carro e começa a caminhada, a 4300 metros de altitude.

Estudando esta montanha, eu havia georreferenciado outra rota, mais a norte, no entanto o caminho que acabei fazendo chega mais alto, mas mesmo assim seria um ataque puxado para quem ainda estava aclimatando. A trilha não aparentava ser difícil, ela seguia uma crista que dava num antecume a sul do Macón, de onde daria acesso a outra crista que levaria até o topo desta montanha. 

Após um trecho inicial mais fácil, a trilha começa a zigzaguear logo após que desaparecem os únicos tipos de vegetação na montanha, que eram alguns arbustos e capins espinhentos. Neste trecho começou a aparecer alguns acarreos e a Maria também começou a sentir a altitude, embora não tenha reclamado. Dei a ela um energético, nos hidratamos e seguimos num ritmo lento, porém constante. 

Chegando ao topo da antecima, o terreno aplainou e ali conseguimos ganhar velocidade e chegar até a base da crista, após vencer diversos cocorutos que deixava o caminho ainda mais misterioso, pois ganhávamos um, aparecia outro.

Na crista, conseguimos achar uma trilha e o que aparentava ser mais difícil, acabou não sendo. Subimos este trecho final rapidamente, até que despontou uma cruz que evidenciava o fim da subida: cume!

A Maria veio a seguir e ficou muito feliz em fazer seu primeiro cume andino. No GPS a altitude marcada foi de 5523, diferente de outras medições que vi na internet, uma de 5611 e outra de 5450 metros. 

E este cume, apesar de desconhecido, foi um grande presente para coroar este final de ano. Apesar do Macón não ser tão bonito como as outras montanhas da região e também ser mais baixo, ele dá uma vista incrível de toda a puna de Salta. Dali eu pude ver o Nevado Cachi e toda sua serra que inclui também o Quemado e o Palermo. Mais a norte, avistei o Acay, Quewar, Tuzgle. No horizonte pude distinguir o Cerro Toco, no Chile e o Licancabur e o Juriques fazendo a fronteira daquele país com a Bolívia.

Ao Sul estava o Aracar, que é o cume mais proeminente dali, o Salin, Pular e Socompa, além do Llullaillaco, soberano. Mais distante, já na província de Catamarca, se via nitidamente o Antofalla e seus 3 cumes. Foi uma visão que deu ânimo para este começo de expedição.`


Cerro Macón (esquerda) pela manhã.

Começando a caminhada pela manhã.
Primeiros raios de sol pela manhã

Frio antes do sol chegar.

Visual da Puna, com o Vulcão Aracar em destaque.

Maria subindo

Começo do acarreo

Vista para o cume e os cocorutos

Acarreos

Enfim a crista final

Subindo a crista

Chegando no cume.

Cruz no cume do Macon

Jogando as cinzas do Parofes

Maria, Parofito e eu no cume do Macón

Vista para o Sul, com o Aracar dominando a paisagem.

Na esquerda o Llullaillaco, na direita o Socompa.