Blog do Pedro Hauck

17 de fevereiro de 2006

Vamos ao Chile!

:: Leia a parte que antecede esta história

Hoje estivemos pesquisando nossa próxima escalada.

Estava nos planos a escalada do Cerro Mercedario, de 6770 mts de altitude.

Entretanto, as dificuldades que este tipo de montanha representa, como por exemplo, a aproximação longa, a necessidade de um planejamento logístico, a necessidade de se contratar um serviço 4x4 para se chegar lah, as moléstias com a altitude, uma vez que esta eh uma das mais altas montanhas da América.

Tudo isso nos fez repensar e ficamos com uma grande lombeira (fala do Bruno) de ter que passar por tudo isso de novo.

Assim abandonamos este projeto de realizar uma expedição ao Mercedário para realizar escalas no Cajón del Maipu, nas proximidades da cidade de Santiago do Chile.

O Cajon del Maipu eh um grane vale rodeado por montanhas, sendo que a mais alta dela eh o Cerro Marmolejo, a montanha de 6 mil metros mais ao sul da cordilheira dos Andes.

Entretanto o Marmolejo nao eh uma das que figuram em nossa lista, pois suas características se assemelham ao do Mercedario, e por isso não queremos subi-lo.

Pretendemos ir para a região de Baños Morales, embalse del Yeso e talvez Farellones, onde se concentram algumas montanhas de 4 e 5 mil metros de trechos técnicos com gelo, ou seja, vamos chegar e ir direto ao assunto.

Sao todas montanhas técnicas mas não difíceis. Podemos escalar um cume por dia, dependendo de nosso físico e vontade.

Uma das montanhas que esta na lista eh o Cerro Bello e Cuerno Blanco, na região de Baños Morales. Mas há outras....

Daqui da Argentina não ha muitas informações sobre o Cajon del Maipu, de forma que vamos ateh lah para saber com exatidão quais são as montanhas que vamos escalar e quanto tempo ficaremos incomunicáveis.

Assim, eh provável que eu fique um bom tempo sem escrever neste blog. O motivo vc´s jah sabem...

Então um grande abraço e até mais notícias...

Paisagem na estrada


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Rumo ao Sul passando por Ischigualasto


Paisagem em Catamarca

Depois de deixar a montanha no paso de San Francisco, voltamos ao piemonte andino e pegamos a estrada em direção ao sul para chegar na cidade de Chilecito em La Rioja.

No caminho nos deparamos com as consequência da tempestade que tivemos na parte alta dos Andes.

Anteriormente tentei descrever a paisagem da região noroeste da argentina, citando todas as dificuldades ambientais que o escasso povo daqui sofre... Acho que esqueci de dizer um detalhe.

Apesar do noroeste argentino estar situado na diagoal arréica da América do Sul, numa das três regiões áridas e semi-áridas do continente, aqui a escassez de água eh rompida uma vez ao ano quando a neve dos cumes andinos eh derretida no verão.

Como as montanhas da Puna são desérticas e não possuem uma vegetação que segure as vertentes. As águas do degelo escorrem superficialmente com muita energia, carregando todo tipo de material existente, inclusive de tamanho de matacões, diga-se, do tamanho de Corsa como o meu.

Esta água e seu material transportado desce com violência pelos vales e vai ganhando muita forca ao ponto de se tornarem grandes trombas de água e lama, formando grandes fluxos de lama pelos vales encaixados da cordilheira.

Ao chegar no piemonte, este fluxo de lama perde energia e deposita os materiais mais grosseiros primeiro e depois, quando perde energia, depositar areia e argila. Este caminho da água atinge dezenas de centenas de quilômetros e eh tao periódico que não chegar a definir um canal fluvial, de forma que estes rios lamacentos tem uma característica difusa, podendo ocorrer em qualquer local, dependendo da forca que possuem em cada ano.

Desta maneira, por toda região aos pés das montanhas andinas eh muito difícil manter uma habitação permanente e atividades econômicas sem antes fazer grandes obras para controlar a forca destrutiva destes fluxos de lama... A Engenharia desta região deve sempre pensar que uma hora ou outra haverá um fluxo de lama para destruir tudo pela frente.

Encontramos em nosso caminho para o sul, mostras de como eh a vida por esta região desolada. As estradas que cortam o noroeste argentino indo perpendicular a cordilheira são todas à prova de fluxos de lama. Elas são construídas em aterros e dependendo da ocorrência dos fluxos elas tem depressões periódicas, chamadas de badenes construídas para dar passagem aos fluxos sem destruir a estrada.

O problema eh que na época do degelo, estas estradas ficam cortadas ao trafego e dão mostra de que esta não eh uma região muito dinâmica para a produção de qualquer coisa que seja, e isso, aliado com o clima árido e a deficiência hídrica eh um grande empecilho para o desenvolvimento.

Por onde quer que estejamos, sempre que passamos por uma cidade ou um povoado, sempre a aparência que temos eh de que o local esta morto. Não vemos ninguém nas ruas, não vemos nenhum sinal de atividades econômicas, tudo eh muito pobre e sem esperança, parece que todos os dias nestas cidades são domingo ou feriado.

Paisagem na estrada em La Rioja
Quando estivemos em Tinogasta, pegamos uma estrada para chegar em Chilecito, mas o fluxo estava cortado pois em um badene havia tanta lama e agua que poderíamos ser arrastados pela forca do fluxo. Fizemos um desvio de uns 150 km e depois de varias horas chegamos em Chilecito.

A cidade de Chilecito eh prospera no noroeste da Argentina pois fica em um vale entre duas cordilheiras, a serra de Famatina e a serra de Velasca. uma com cumes de mais de 6 mil metros e outra com pelo menos uns 4500 mts.... ou seja, pelo vale de Chilecito, se drenado, tem-se a agua para o desenvovolvimento.

A região eh muito seca, e com a agua drenada no vale cria-se em Chilecito um clima artificial imitando o clima mediterrano e la e produz muita uva e vinhos e muita Oliva e azeite, por isso Chilecito eh um Oásis no meio do deserto.

Assim mesmo Chilecito não deixa de ser morta, apesar de turística, a cidade ainda mantem aquele velho habito argentino de se realizar a siesta, ou seja de para com tudo depois do almoço. Chegamos na cidade às 15:00 de uma terça feira e encontramos uma cidade tao morta que nem parecia o dia que era, mas sim um domingo. Não havia nem sequer um cachorro na rua para pedir informação, parecia uma madrugada em plena tarde.

Fiquei com tanta raiva deste costume folgado que adicionei a siesta como um dos motivos para o subdesenvolvimento da região, alias quem quer investir numa região em que todo mundo só trabalha de manha. Ainda bem que não existe siesta no Brasil, não há nem se quer uma palavra para isto em português, o que mais se aproxima eh folga, isso sim...

Bom, voltando ao relato, acabamos por encontrar um camping na periferia da cidade. e Dormimos lá por apenas 3 pesos. De noite apareceu dois viajantes franceses que vinham do sul de bicicleta e se juntou a nos dois e mais um canadense que também, viajava de bike. Conversamos ate altas horas e depois fomos dormir.

No dia seguinte acordamos cedo e nem tivemos tempo de despedir dos amigos e logo estávamos na estrada novamente, com o Maximo se lembrando sempre de sua odisseia por aquela região 5 anos atrás.

Atravessamos La Rioja e logo adentramos San Juan, indo parar no Parque nacional de Ischigualasto, que na linguagem indígena significa terra sem vida, um bom nome para o lugar.

Em Ischigualasto aflora-se à superfície formações geológicas das três eras, o paleozoico, mesozoico e cenozoico. Lá há fosseis de varias idades e eh uma referencia mundial para a paleontologia, tendo sido encontrados os dinossauros mais antigos do mundo, datados do Triássico.

O parque nacional eh tb chamado de vale da lua para atrair os turistas, que vem do mundo inteiro para ver os dinos, entretanto a região para mim tem grande interesse geomorfológico, pois durante a historia geofísica do local, passou por diversos clima e ambientes e podemos ver aflorados lateritas quando na região imperou um ambiente do tipo do cerrado que inclusive foi responsável por mantem a vida dos grandes dinos que ali habitaram.

De volta a estrada, passamos pela região frutífera mais importante talvez da América do Sul, de onde vem as azeitonas que consumimos no brasil, e também os pêssegos, vinhos e outras frutas.... passamos a noite num posto de gasolina e chegamos ontem a Mendoza, que desde de 2000 tem sido uma referencia em nossas viagens.

Estamos descansando um pouco e nos preparando para escalar nossa próxima montanha. Entretanto ainda não sabemos o que vamos fazer.

Uma das opcoes seria escalar o Cerro Mercedário, que com 6770 mts eh uma das mais altas dos Andes. Entretanto para chegar la teremos que pagar um 4x4 e também teremos que fazer uma longa aproximação, atravessando quilômetros com as mochilas nas costas e cheios de equipos, pois gostaríamos de fazer a rota sul, que se assemelha muito com o glaciar polacos do Aconcagua. Acontece que fazer tudo isso eh demorado e desgastante e tudo o que eu não quero agora eh passar por este tipo de dificuldade física e os abalos psicológicos que a altura e o cansaço faz.... Estamos estudando e em breve veremos o que vamos fazer.


Ischigualasto

Ischigualasto

Ischigualasto


Ischigualasto

Ischigualasto

Ischigualasto


ps. novamente peco desculpas pelos erros, não se esqueçam que estamos num pais com um teclado totalmente diferente do português, e com pressa para nao gastar muito no cyber cafeh... abrazo a todos....

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16 de fevereiro de 2006

A escalada no Incahuasi

:: Leia a parte que antecede este relato:

Max e eu na base do Incahuasi

Depois que fizemos a aclimatação no paso San Francisco e descer de volta para as termas, chegou em fim a hora de subir o Incahuasi.

Escolhemos este lugar para aclimatarmos pois ali o acesso é muito fácil e podemos chegar numa altitude elevada de carro, não precisando, como no sul fazer toda a aproximação à pé.

Então saímos com o carro das Termas para ir até a base do Vulcão Incahuasi. No caminho atravessamos uma grande planície inundada por agua salgada, onde os flamingos comiam livremente.

Tivemos dificuldades no caminho, pois o Corsa não é um carro feito para antes em terrenos muito acidentados. Por vezes tivemos que parar e tirar rochas vulcânicas vítreas do caminho para que elas não rasgassem o pneu e nem mesmo estourassem meu cárter, pois o carro é muito baixo. Mesmo no frio da altitude, andando a poucos quilômetros por hora, o motor aqueceu várias vezes e também tivemos que parar muito devido a estes incidentes. Resultado, chegamos na base do vulcão por volta das 16:00.

Estávamos famintos, de modo que ainda tivemos que cozinhar antes de subir.

Separamos todos os equipos e fomos o mais leve possível para o vulcão. Mas sem antes cuidar do carro, tirando a bateria para que não houvesse nenhuma zica, como naquela manhã em que a bateria havia descarregado e havíamos ficado nas termas sem ter como tirar o carro de lá. O mesmo incidente iria dar muito mais trabalho para nós, pois desta vez estávamos a uns 10 km de Las Grutas em uma estradinha precaríssima, o que talvez significasse uma negativa de socorro.

Começamos a subir tarde. Pelo menos o sol não nos castigou. Atravessamos uma pampa de sedimentos vulcânicos e em breve chegamos numa crista negra de materiais magmáticos, por onde subimos.

Quando as nuvens deram uma trégua, pude observar pela lado sul da montanha um caminho mais simples entre as encostas do Incahuasi e um colo que se formava em cone vulcânico secundário, onde se acumulava bastante neve que naquele lugar nos possibilita conseguir agua.

Apesar disto fomos pelo norte nesta crista negra e seca.

Quando eram por volta das 19:00 horas encontramos um lugar mais ou menos plano onde estabelecemos um acampamento 1, a 4800 mts de altitude.

Dormimos muito bem neste local e no dia seguinte desmontamos tudo e prosseguimos para o alto mais leves, pois havíamos consumido toda a agua que levávamos, o que nos obrigava desta vez a acampar perto de neve.

Subimos e penamos pela crista vulcânica. Várias vezes as rochas soltas nos faziam voltar e perder o equilíbrio, transformando tudo num pesadelo. A pior parte foi uma travessia sobre uma vertente inclinada e coalhada de cascalhos brancos, provavelmente gesso vulcânico que se comportava como bolinhas de gude.

Depois de muito esforço e paciência conseguimos superar esta dificuldade e chegamos em uma outra crista rochosa e escarpada onde montamos um acampamento 2 a quase 5700 metros de altitude.

Desta vez, antes de descansar, tive que passar por uma longa seção de derretimento de gelo para se obter o tão precioso líquido da vida. Nos hidratamos muito para que a aclimatação ficasse tudo ok e fomos dormir no meio do frio negativo da montanha.

Acordei por volta das 7 da manhã e me deparei com um dia perfeito, sem nuvens e vento e logo me preparei para poder subir.

Demoramos um tanto na preparação, pois o Maximo sentiu muitas dores de cabeça durante a noite. Jah havia cogitado a hipótese de esperar mais um dia, mas rapidamente Maximo se recuperou e pudemos por nós em marcha para o ataque ao cume.

Como disse, acabamos saindo tarde, por volta das 10 da manhã, mas em um lugar que anoitece as 10 da noite este não era nenhum problema. Subimos uma outra crista negra de material magmático e em breve chegamos em um glacial. O gelo no início era de boa qualidade, mas em quase todo o caminho ele se mostrou oco, ou seja pisávamos nele e abaixo da superfície havia uma camada de ar que fazia que afundávamos até o calcanhar e nos fazia cansar.

Tivemos que procurar um caminho para ascender sem se cansar tanta e por isso ficamos zigzagueando por perto das rochas procurando estes lugares que não afundavam.

Após andar assim por duas horas, chegamos em um lugar mais rochoso e escarpado e quando conseguimos vencer estes obstáculos e parecíamos que iriamos galgar no cume, chegamos numa plataforma gigante de onde o cume verdadeiro se elevava mais uns 200 metros pelo menos.

Foi um desanimo chegar lá e ver o cume tão longe, não somente verticalmente mas também horizontal, pois teríamos que atravessar esta enorme plataforma cheia de neve fofa e subir uma vertente longa e pouco inclinada para se chegar ao cume.

Pensamos um pouco, e fomos em direção ao cume. Havíamos chegado lá em somente 3 horas e faltava pouco para chegar ao ponto mais alto da montanha, de forma que não havíamos que nos preocupar com o cansaço.

Atravessarmos cuidadosamente a grande plataforma nevado, desviando ora e outra da neve fofa e traidora que nos fazia afundar até o joelho. Chegamos até a pendente que nos levava ao cume, quando de repente os ventos começaram a soprar mais forte e se formou um grande nuvem negra no cume e no horizonte que ameaçou a acabar com tudo. Ainda resistimos um pouco, mas o mal tempo era mais forte.
Incahusi com mal tempo

vista do 1 acampamento

Campo 1

O cansaço bateu forte em mim e resolvi dar meia volta e descer. Quando isso aconteceu o altímetro do gps marcava 6522 metros, ou seja menos de 100 mts do cume que poderíamos em condições perfeitas alcançar em menos de 40 minutos.

Desci procurando a entrada do vale glaciar por onde subimos. Entretanto o caminho que fizemos para desviar da neve fofa e os montes de detritos vulcânicos transformaram tudo num labirinto piorado com a confusão da tempestade.

Fiquei pela primeira vez sem saber por onde ir na montanha, então me comuniquei com o Maximo pelo rádio pedindo a ele onde era o caminho certo e ele veio a mim para que descêssemos juntos. O cume estava acabado para nós.

Nos confundimos todos para achar o caminho, mas depois que achamos estar no lugar certo, descemos com rapidez e chegamos salvos no acampamento.
Dormimos exaustos com o dia puxado. Foi muita infelicidade ter acontecido esta tempestade. A noite foi gelada e nevo como nunca lá em cima. Ao amanhecer, toda a secura da Puna do Atacama foi tomada pelo branco da neve que caiu durante a noite, transformando completamente a paisagem.

Desmontamos o acampamento e sem comer descemos lentamente as encostas do vulcão, sofrendo muito com aqueles cascalhos brancos que como bolinhas de gude nos botava no chão e nos castigava sem piedade. Foi um inferno aquela travessia.

Quase morto de cansaço chegamos ao carro. Montamos a bateria e ele deu a partida. Entretanto quando eu acelerava ele morria. Empurramos o carro ladeira abaixo e ele andou uns 500 metros e não morreu. Graças a deus o carro funcionou, agora só faltava a estrada maldita para chegarmos no asfalto.
Com muito medo fui desviando das rochas pontudas e consegui vencer os 10 km mais traiçoeiros que já dirigi.

Chegamos as termas feitos fantasmas. Nos banhamos nas aguas quentes e quando já pretendíamos passar a noite lá, alguns trovoes nos fez desistir da ideia e nos mostrou como seria a próxima noite na altitude.

Vista do acampamento 2 pela manhã: Tudo nevado!
Pegamos todas nossas coisas e rapidamente saímos de lá.
Deixamos las Grutas e a uma aparente tempestade de neve para trás e pegamos a estrada com a ideia de dormir em um refugio na beira da estrada em uma altitude mais baixa.

Após rodar uns 50 km chegamos ao lugar que havíamos acampados na nossa primeira noite lá. Eu havia esquecido neste local uma garrafa de refrigerante na água de uma lagoa para esfriar e fomos lá resgata-la.

A encontramos uns 15 metros acima da lagoa, numa barranco do rio, que nos mostrou que a tempestade na montanha resultou lá embaixo de enchente. A garrafa estaca toda suja de lama, mas o conteúdo era delicioso depois de 10 dias de montanha.

Acampamos em uma antiga fazenda que havia se transformado em refugio. A casa era de barra e não tinha portas. Dentro estava uma poeira de centímetros no chão e um caos.

Fizemos uma macarronada a alho e olho, a única coisa que havia sobrado de comida e fomos dormir contentes. Entretanto a casa se mostrou não ser abandonada e de noite o dono mostrou sua cara: RATOS!
Casa onde tentamos dormir e fomos atacados por ratos
Fomos violentados pelos ratos, que nos torturaram como podiam. Abandonamos o refúgio e tivemos que dormir lá fora, sob ameaça de chuva.

Com sorte não choveu, mas fez um frio tão grande que tivemos que esperar o sol ficar forte para podermos descongelar o carro para sair.

Descemos o resto da montanha que havia e em breve chegamos em uma Fiambalá assolada pelo fluxo de lama que desceu da montanha resultado da tempestade que agarramos lã em cima.

Foi uma escalada estranha, não cheguei a curtir muito, embora várias vezes eu tenha me impressionado com a beleza cênica da região.

Cheguei a conclusão que o Incahuasi é uma montanha que aproxima muito o céu do inferno. Foi isso o que aconteceu conosco.

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Subindo o Nevado San Francisco

:: Leia a parte que antecede este relato

Auto retrato na base do San Francisco: Frio!
Por sorte a água do carro não congelou, mas mesmo assim estou preocupado. Ficamos mais duas noites a 4700 naquele refúgio. Após Maximo ter acordado depois daquela noite terrível, ele teve uma significante melhora.

Para conter a angustia de ter que ficar esperando numa altitude tão ingrata, fui buscar água no Chile e desci até a aduana que fica ao lado da Laguna Verde, um lugar muito interessante. Fiquei imaginando o Maximo lá naquele local a cinco anos atrás passando por apertos… mas isso ele mesmo conta no site. No chile tudo é muito árido e a água da laguna verde era impropria para beber. Por isso voltei para o refúgio e desci novamente a Grutas para pegar mais água.

Este pequeno passeio de ir e voltar me fez sentir melhor e os ânimos retornaram. Nesta noite o tempo foi impecável, sem ventos e com céu claro. Dormi confortável e ainda assisti um filminho no computador para distrair.

No dia seguinte acordei disposto a atacar o cume do San Francisco, mas o Maximo não estava bem novamente. Acabei por sair sozinho por volta das 11 hs. Achava que iria ser fácil escalar aquele vulcão, mas aqui as aparências enganam. A subida pela vertente do vulcão era interminável e logo o cansaço me abateu. Parei várias vezes para descansar e beber água. Só não desisti por que quando olhei no altímetro do relógio percebi que faltava pouco para o fim.

Cheguei no cume muito cansado, nem verifiquei que horas eram. Tirei algumas fotos, dentre elas uma em que figurava no horizonte o Monte Pissis o Bonete Chico e Bonete Grande, algumas das mais altas montanhas dos Andes. Não lembro de nenhuma boa recordação do cume do San Francisco.

De todos os cumes que já alcancei, este foi sem dúvida o mais feio, pois com exceção destas montanhas, incluindo ai o Incahuasi, tudo o que se vê é um deserto seco sem vida. Por fim foram 1200 mts de ascensão direta por um caminho muito longo. A descida foi penosa devido aos ventos e principalmente o cansaço. Senti que se eu estivesse melhor aclimatado tudo seria mais fácil.

Voltei para o refúgio exausto e dormi muito mal, tendo algumas alucinações e acordando muito durante a noite. O dia amanheceu hoje diferente de ontem, havia muita neblina nos vales e fazia um pouco mais de frio, embora estivesse sem vento. Decidimos então regressar a grutas e dar início a tentativa de escalar o Incahuasi. Deixamos avisados os policiais e viemos de volta as termas para descansar.

Iremos passar a noite na terma e amanhã iremos ao Inca. Antes de chegarmos aqui, fui conferir o caminho até lá, tive pena do carro, mas ele está até agora reagindo muito bem as nossas necessidades. Espero chegar ao cume do Inca sem problemas. O dia não foi tão bonito como os anteriores e o cume dele ficou fechado o tempo todo. Vou torcer para que estas nuvens se vão rápido e que em 4 dias no máximo possamos estar lá em cima. Vamos ver no que vai dar.

Vista para o Incahuasi

Visão do cume

Visão do cume para o lago na base do Incahuasi

Vista do cume

Auto retrato

Auto retrato

Vista para o norte com o Peinado e o Sierra Nevada

Aclimatando no Paso San Francisco

:: Leia a parte que antecede esta história


Ontem subimos de Las Grutas, onde ficam os policiais da aduana e os funcionários que mantem a rodovia que fica a 3900 mts e viemos até a fronteira que fica a 4700 mts.

São apenas 20km que separam estes locais. A Fronteira, chamada de Paso San Francisco, fica na base de um vulcão do mesmo nome que tem cerca de 6000 e que fazia parte de nossos planos escalá-lo para forçar uma aclimatação. Chegamos aqui por volta das 13 horas e nos instalamos em um pequeno refúgio que é um abrigo para quem tem problemas na estrada e é usado pelos andinistas como nós.

Passaram alguns carros por aqui, dentre eles três suíços que visitaram o refúgio, tomamos mate com eles. Quando os suíços se foram, Maximo me contou que sentia uma leve dor de cabeça. Entoa propus que ele subisse um pouco para forçar a aclimatação. Em pouco tempo ele se preparou e partiu, enquanto isso fiquei no refúgio cuidando das coisas e carregando a bateria do computador. Se lá embaixo o aquecimento do motor do carro era uma de minhas preocupações, aqui em cima passou a ser o congelamento dele.

Eu até então não havia pensado nesta hipótese, mas a agua do radiador pode facilmente ser congelada e isto poderá acarretar problemas nas mangueiras e no próprio radiador, como uma rachadura e vazamentos. Se isso acontecer, estamos ferrados aqui neste deserto. Maximo demorou três horas para voltar, subiu em um local tão alto que pelo rádio ele me explicava e eu não conseguia enxerga-lo nem mesmo com a lente de 300 mm da máquina fotográfica. Ele voltou exausto, a tempo que eu preparasse um macarrão que saiu uma gororoba horrorosa.

Ao invés da subida ter forcado nele uma aclimatação, resultou o contrário, ele se exauriu e passou a ter mais dor de cabeça. A noite chegou calma, com poucos ventos e um céu aberto cheios de estrelas. Eu dentro do refúgio resolvi tirar a agua do radiador, mas não consegui sacar quase nada. A noite foi terrível para ambos, mas pior para o Maximo que teve delírios e alucinações. Eu dormi muito mal também. Senti dores de cabeça e tive sonhos ruins que faziam minha cabeça girar como ondas do mar. me senti um pouco enjoado.

Pela manhã, antes do sol nascer, Maximo acordou para vomitar, o que é um mal sinal. Para a aclimatação. Subimos muito rápido, saindo do fundo da bacia do Paraná a 200 mts de altitude para os 4700 em apenas 3 dias, por isso ficamos assim... Para piorar, meu medo de dar algum problema no carro aconteceu. Agora pela manhã abri o capo do carro e a agua estava congelada no radiador. Não sei o que faremos hoje, mas o mais prudente é descer.

Se queríamos forcar a aclimatação já forcamos bastante subindo e dormindo aqui. Vou esperar o Maximo levantar e o carro descongelar para tomarmos uma atitude.

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