Blog do Pedro Hauck

7 de janeiro de 2015

Escalando o Nevado de Acay - 5770

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A primeira vez que vi o Nevado de Acay foi em Julho de 2007, quando passei por Salta a caminho da Bolívia junto com o amigo Marcio Carrilho, numa expedição que chamamos de Kollasuyo, que era o nome do antigo território incaico do sul que abrange esta região e também a Bolívia.

Subimos a Puna pela Ruta 40, através do Valle de Calchaqui que quase chega aos 5 mil metros na chamada Abra del Acay, que é um colo desta montanha onde se chega mais alto numa estrada argentina. A experiência, no entanto, não foi a melhor, pois com a pressão e a força que colocamos no motor, todas as mangueiras do sistema de arrefecimento do Corsa do Marcio estouraram e por sorte não fundimos o motor.

Na descida em Salta, depois que arrumamos o carro, encontrei uns andinistas sem querer num supermercado e eles me contaram o caminho para chegar ao cume, que não era pela Abra, mas sim por um caminho mineiro que começava na estação abandonada de Muñano do Tren a Las Nubes. Foi procurando este caminho que georreferenciei o tracklog para chegar no Acay nesta expedição.

Seguindo este tracklog, no primeiro dia de 2015, fomos eu e a Maria ganhando altura com o Jimny, sem saber se aquele era o real caminho. Após atravessar um pequeno rio, o caminho se complica e é necessário usar a reduzida. Em diversos momentos a trilha 4x4 fica inclinada e parece que o carro vai cair tombando ladeira abaixo. Por este motivo não fomos até o final da trilha, pois ela não aparentava ser possível chegar ao fim. Por este motivo, aliás, tracei uma rota até o cume subindo por uma crista que começava ao lado do local onde acampamos, a 4700 metros de altitude, de onde pudemos ver uma tempestade elétrica se formando atrás do Nevado Chañi, na divisa de Salta com Jujuy.

Por conta da altitude, não tivemos a melhor noite da viagem, aliás, foi uma das piores. Acabou que pela madrugada não nos animamos a subir o Acay, mas pela manhã acordamos mais dispostos e mesmo tarde decidimos ir ao cume. Eram 9:45 AM.

Sem achar um caminho humano pela rota que tracei, fomos subindo por trilhas de vicunhas, alcançando os 5 mil metros onde cheguei no começo da crista, que era bastante escarpada e cheia de rochas soltas. Tentando evitar o “acarreo”  fui contornando a crista e me dou de cara com a estrada que achei não valer a pena subir e logo mais encontro à frente a tal mina que era o final do caminho. Lá havia um acampamento e dali uma trilha visível. Georreferenciei errado a rota da montanha.

Andava rápida na ânsia de encontrar um caminho e por isso deixei a Maria atrás cansada. Quando ela me alcançou falei que não sabia onde era o caminho e mostrei as possibilidades. Ela calmamente me falou para irmos lá onde eu achava e assim, já tendo certeza que iríamos apenas “passear” por ali, já era meio dia. No entanto, aquele caminho se mostrou se a rota de fato, pois encontrei varias marcações de caminho, embora não tenha achado mais pegadas.

Este caminho nos levou até um vale que subia entre montes mais altos. Subindo este vale, chegamos em um colo e pelo GPS eu soube que a crista na esquerda deste colo levava direto até o cume. Apesar do GPS mostrar isso, no olho esta rota parecia mais difícil, pois a crista se inclinava em determinado momento e haviam muitas rochas soltas. Mesmo assim, continuamos.

No começo a crista era fácil, mas ao se inclinar havia muita rocha solta, rochas grandes que ficavam empilhadas uma sobre outra. Apesar do caminho ruim, fomos buscando uma maneira de ascender por ali. Por sorte os blocos eram grandes e pesados o suficiente para não ficarem escorregando com a gente como nos acarreos. O problema seria se eles se movessem, o que acabou não ocorrendo, ainda bem.

Assim vencemos este trecho ruim e acabamos chegando na região do cume do Acay, que é grande e plano. Lá vimos um monte de rochas empilhadas e no meio delas uma cruz. Era o cume 5770 metros.

A descida foi tranquila, mas devido ao horário que começamos a ascensão, chegamos no acampamento no anoitecer e acabamos dormindo por lá mesmo, passando nossa segunda noite a 4700. 

O Acay geralmente é mais fácil, se você conhece o caminho, no entanto se perder e achar o caminho e ainda fazer o cume, quando você achava que iria apenas passear não é nada mal.

:: Continua...

O Nevado Acay nevado no ano passado. Ele é assim, ora seco, ora nevado...

Aproximação do Acay em 4x4.

Nossa base no Acay

Vista para o Nevado Chañi a noite com tempestade elétrica.

Vista noturna para o Chañi

Vista para o Acay à noite.

Saindo para o cume pela manhã.

Ruínas a 4800 metros e o Cerro Quewar no fundo.

Maria no primeiro trecho pela manhã

Vista para o Vulcão Tuzgle e Maria na transversal que fizemos até onde seria o começo da caminhada.

Inicio verdadeiro da caminhada ao cume. Aqui quase desisti.

Maria subindo a canaleta que leva à crista do cume

Maria e a crista do cume. Bastante rocha solta.
Vista para o vale de Cachaquie e o Nevado Cachi.

Subindo a crista do cume.

Vista para onde está o cume verdadeiro

Maria chegando ao cume.

Maria e eu no cume do Acay com o Parofito.

Parofito no cume do Acay

Jogando as cinzas do Parofes no cume do Acay

Maria fazendo pose em seu segundo cume andino.

5 de janeiro de 2015

Escalando o Macón a montanha sagrada de Tolar Grande


Conheci o Macón meio sem querer em dezembro de 2012 quando estive pela segunda vez em San Antonio de los Cobres. Estávamos eu, o Waldemar e a Silvia almoçando em um restaurante quando ao ler um jornal local vi a notícia que a comunidade Kolla de Tolar Grande Grande tinha realizado sua ascensão anual à montanha, na hora pensei que esta montanha poderia ser uma boa alternativa para fazer uma aclimatação para escalar montanhas mais altas da região.

No ano seguinte, com Luiz Antoniutti e Luca, chegamos a ir em direção à esta montanha, mas o infortúnio de ter 2 pneus furados no mesmo dia nos levou ao Chile para aclimatarmos para escalar o Llullaillaco no Sairecabur e Licancabur.

Como não gosto de repetir montanhas e sempre conhecer coisas novas, neste ano escolhi o Macón para ser a primeira montanha da expedição Puna de Salta. Primeiro por sua facilidade técnica e altitude e depois por que o tempo que gastamos chegando em sua base já é parte da aclimatação (ler o ultimo post: Caminho de Tolar Grande).

Seguindo nossos planos, acordamos cedinho no dia 31 de dezembro para fazer nosso ataque ao Macón. A aproximação de jipe, desde Tolar Grande é fácil, pois a estrada é melhor do que a que liga San Antonio a Tolar, no entanto em determinado momento o caminho para a montanha deriva para a direita e aí ele se torna uma pegada que dada a inclinação e a altitude, é necessário ligar a reduzida. Assim, por volta das 8 da manhã, chegamos ao local onde se deixa o carro e começa a caminhada, a 4300 metros de altitude.

Estudando esta montanha, eu havia georreferenciado outra rota, mais a norte, no entanto o caminho que acabei fazendo chega mais alto, mas mesmo assim seria um ataque puxado para quem ainda estava aclimatando. A trilha não aparentava ser difícil, ela seguia uma crista que dava num antecume a sul do Macón, de onde daria acesso a outra crista que levaria até o topo desta montanha. 

Após um trecho inicial mais fácil, a trilha começa a zigzaguear logo após que desaparecem os únicos tipos de vegetação na montanha, que eram alguns arbustos e capins espinhentos. Neste trecho começou a aparecer alguns acarreos e a Maria também começou a sentir a altitude, embora não tenha reclamado. Dei a ela um energético, nos hidratamos e seguimos num ritmo lento, porém constante. 

Chegando ao topo da antecima, o terreno aplainou e ali conseguimos ganhar velocidade e chegar até a base da crista, após vencer diversos cocorutos que deixava o caminho ainda mais misterioso, pois ganhávamos um, aparecia outro.

Na crista, conseguimos achar uma trilha e o que aparentava ser mais difícil, acabou não sendo. Subimos este trecho final rapidamente, até que despontou uma cruz que evidenciava o fim da subida: cume!

A Maria veio a seguir e ficou muito feliz em fazer seu primeiro cume andino. No GPS a altitude marcada foi de 5523, diferente de outras medições que vi na internet, uma de 5611 e outra de 5450 metros. 

E este cume, apesar de desconhecido, foi um grande presente para coroar este final de ano. Apesar do Macón não ser tão bonito como as outras montanhas da região e também ser mais baixo, ele dá uma vista incrível de toda a puna de Salta. Dali eu pude ver o Nevado Cachi e toda sua serra que inclui também o Quemado e o Palermo. Mais a norte, avistei o Acay, Quewar, Tuzgle. No horizonte pude distinguir o Cerro Toco, no Chile e o Licancabur e o Juriques fazendo a fronteira daquele país com a Bolívia.

Ao Sul estava o Aracar, que é o cume mais proeminente dali, o Salin, Pular e Socompa, além do Llullaillaco, soberano. Mais distante, já na província de Catamarca, se via nitidamente o Antofalla e seus 3 cumes. Foi uma visão que deu ânimo para este começo de expedição.`


Cerro Macón (esquerda) pela manhã.

Começando a caminhada pela manhã.
Primeiros raios de sol pela manhã

Frio antes do sol chegar.

Visual da Puna, com o Vulcão Aracar em destaque.

Maria subindo

Começo do acarreo

Vista para o cume e os cocorutos

Acarreos

Enfim a crista final

Subindo a crista

Chegando no cume.

Cruz no cume do Macon

Jogando as cinzas do Parofes

Maria, Parofito e eu no cume do Macón

Vista para o Sul, com o Aracar dominando a paisagem.

Na esquerda o Llullaillaco, na direita o Socompa.


3 de janeiro de 2015

O caminho de Tolar Grande


Na Puna as distâncias não são medidas em quilômetros, mas sim em horas. De San Antonio de Los Cobres à Tolar Grande são apenas 200 km, mas é fácil perder um dia inteiro de viagem.

O motivo disso é a que as estradas de terra são poeirentas, cheias de costelas de vacas, muitas vezes estreitas. Elas atravessam salares, passos altíssimos e sobem e descem o tempo todo, saindo de 3000 a 4500 ou até 4800 metros de altitude como é a Abra Del Acay. 

Também são demoradas pela beleza cênica da paisagem desértica que deixa à mostra a rocha desnuda que tanto contrasta com o céu azul da altitude. Além disso, estamos numa região muito remota, onde quase tudo é selvagem e é possível avistar muitos animais, como Lhamas, Vicunhas, ñandus (ema), condores, raposas e chinchilas.

Ainda no começo de nossa jornada de “aproximação” de Tolar Grande, presenciamos uma lhaminha recém nascida, ainda com os olhos semi fechados, teve dificuldade para atravessar a estrada e foi amparada por sua mãe, que nos olhou com uma cara dizendo que não éramos bem vindos.

Um pouco depois, o caminho foi ficando sinuoso e fomos ganhando altitude até chegarmos próximos aos 4700 metros, para depois descer tudo de novo e chegar no Salar de Pocitos, onde a cor da paisagem muda para o branco e a turquesa das águas que afloram do salar. Em seguida, a paisagem muda novamente e chegamos num deserto de rochas vermelhas que domina a paisagem até Tolar Grande, nesta remota cidade, talvez a mais remota de toda argentina, uma cidade que surgiu em função da ferrovia Salta x Antofagasta, mas que ainda se preservou mesmo depois do sucateamento do trem.

As coisas mudaram aqui no ultimo ano. Há um banco em construção no vilarejo e o cacique mudou. Porém ainda não tem internet e nem posto de gasolina. Tolar Grande é um vilarejo “kolla”, palavra que designa o povo indígena do altiplano que é descendente do Kollasuyo, a região sul do império inca. Ali vivem menos de 500 pessoas, a maioria para as empresas de mineração. O dinheiro destas empresas, no entanto, estão transformando Tolar Grande. Hoje há um hotel municipal e um albergue, além de escritório de turismo. As atrações do local estão sendo preservadas e a cultura também. No entanto o local continua sendo para poucos, dado o difícil acesso e ao fato que poucos sabem que existe este lugar.

Nosso objetivo nesta primeira estada em Tolar é apenas aclimatar e para isso vamos escalar uma montanha de 5520 metros de altitude visível desde ali, o Nevado Macón.


Lhama recém nascida e seu pais na estrada de Tolar Grande.

Salar de Pocitos

Maria e um "ojo" que é uma abertura no salar onde aflora a água subterrânea.

Ojo no salar de Pocitos
Escarpa de rochas sedimentares no meio do deserto

Estrada de Tolar Grande

Paisagem marciana na estrada de Tolar Grande

Paisagem marciana na estrada de Tolar Grande

Paisagem marciana na estrada de Tolar Grande

Deserto do Diabo e a Serra do Macón ao fundo.

No topo da escarpa das sete curvas.

O nascimento de um vulcão (no centro da foto na base da escarpa)

Da direita para esquerda: Vulcão Aracar, outras montanhas que não sei o nome, Salin, Pular, Socompa e ao fundo, bem longe, o Llullaillaco.

Cidade de Tolar Grande

Centro de Tolar Grande
Igrejinha de Tolar Grande

Casinhas de adobe da antiga Tolar Grande, hoje em ruinas.

Estação de trens de Tolar Grande

Placa da estação de trem de Tolar Grande