Blog do Pedro Hauck

2 de abril de 2009

Da Lagoa dos Patos até o Chui

Quarta Feira, 1 de Abril.

Após uma noite tranqüila (só para mim),voltamos a Tavares e logo já estávamos na estrada novamente.

A restinga da Lagoa dos Patos é muito grande e não aparenta ser o que é, pois dos dois lados da BR 101 não avistamos mar ou lagoa. Na maior parte do tempo vemos a obra do homem sobre a natureza: São fazendas de gado, arroz e pinus. Ora ou outra se vê alguma duna ou um resquício da pradaria original da paisagem com algumas poucas árvores velhas e retorcidas por ação do vento constante.

O asfalto novo rapidamente nos conduziu até o final da restinga em São José do Norte. Chegamos cedo demais, pois a balsa que atravessava a lagoa até Rio Grande saia apenas às 14 horas, três horas mais tarde. Tivemos bastante tempo para comer bem e passear pela pitoresca cidade que lembra muito as pequenas cidades pesqueiras do sul do Chile. São José do Norte é uma cidade histórica e estratégica pela posição geográfica, tanto que lá foi palco de uma luta muito sangrenta na guerra dos farrapos.

Atravessamos a lagoa. Infelizmente eu não pude aproveitar a vista da balsa, pois o barqueiro mandou eu enfiar o carro em um lugar tão estreito entre dois outros, que não consegui abrir a porta... Mesmo assim pude ver, dentro do carro, um lobo marinho nadando na lagoa, quase em Rio Grande, onde só fomos desembarcar lá pras 3 da tarde, sem tempo de conhecer esta cidade que é um grande centro da marinha e de estudos do mar, com cursos em uma Universidade Federal totalmente relacionados com oceanografia.

De volta à estrada, a paisagem cada vez mais me lembrava a Argentina, com retas intermináveis, pradarias com capões de Eucaliptos, estas, as únicas árvores grandes, já que as originais nunca ficam maior que arvoretas. Atravessamos banhados, de onde pudemos ver capivaras e muitas aves. A paisagem natural monótona é humanamente monótona também. Vai e vem aparecem alguns vilarejos de beira de estrada uns iguais à outros e cada vez mais espanholados. Antes líamos lachonetes, depois lancheria e logo viraria comedor. Borracharia? Só se for nome de bar, para ficar “borracho”...

A balsa atrapalhou todos nossos planos e só chegamos em Chui com o anoitecer. Mal pudemos ver a cidade e já fomos em direção à praia da Barra do Chui, para achar um lugar tranqüilo para acampar. Ao chegar lá, percebemos que estávamos em uma praia urbanizada e que seria mais seguro achar um camping. Até encontramos um, fechado, pois estamos em baixa temporada... Ruim? Que nada, acabamos encontrando uma cabaña, ou melhor, chalé, por 40 reais, 10 por pessoa!

Ainda nem chegamos no Uruguai, mas já estou falando espanhol e cada vez que chegamos mais próximo a fronteira, mais barato vão ficando as coisas. Será que o Uruguai é barato como a Argentina? Quando pesquisei na internet me pareceu o contrário, mas acho que a crise derrubaram os preços por lá, pelo menos da gasolina. Amanhã veremos...

Cena das pradarias mistas

São José do Norte, fim da Restinga da Lagoa dos Patos.

A vida na Lagoa dos Patos.

Reserva do Taim

Paisagem das Pradarias riograndenses, antes de Chui.

Considerações geográficas sobre o litoral gaúcho.

Terça Feira, 31 de Março de 2009.

Ao sul do Rio Itajaí a Serra do Mar dá lugar à Serra Geral como elevação que separa a planície litorânea dos planaltos. Diferentemente da primeira, a outra apresenta-se mais como escarpa com desnível abrupto sem apresentar grandes picos elevando-se do nível médio dos planaltos, como é a Serra do Mar paranaense.

Outra diferença é que na Serra do Mar predominam as rochas que comportam o embasamento crustal do continente (granitos e gnaiss), enquanto na Serra Geral predominam rochas vulcânicas oriundas dos derrames mesozóicos (basaltos). No Paraná, esta mesma unidade geológica encontra-se a 1200 metros de altitude que regionalmente sustenta a escarpa entre o segundo e o terceiro planalto, no Rio Grande do Sul e Sul de Santa Catarina, esta escarpa começa no nível do mar.

As razões para a situação topográfica mais elevada da Serra Geral no estado do Paraná é o soerguimento do Arco de Ponta Grossa, enquanto que no Rio Grande e Sul de Santa Catarina, a posição frontal em relação ao mar se deu por uma grande e poderosa erosão remontante.

Na planície litorânea de Santa Catarina afloram rochas paleozóicas com seqüências carboníferas e permianas. Nestas formações há a presença da hulha com grande poder calorífero que movimenta a economia de Criciúma, Lauro Müller, Tubarão etc... Estas formações, abaixo dos basaltos Serra Geral, irão aparecer de volta mais ao interior do Rio Grande, depois das colinas um pouco mais elevadas do Escudo (ou Cráton, que é o embasamento constituído de granitos etc), onde fica Porto Alegre.

Note que na periferia dos planaltos ocorrem depressões, isso em todos os estados da bacia do Paraná, seja em Minas, São Paulo, Paraná (que é soerguida), Santa Catarina e Rio Grande. A diferença é que nestes dois estados a chamada depressão periférica situa-se no litoral, enquanto nos outros localiza-se em porções mais interiores. Outra diferença é que o Escudo do Paraná e São Paulo são planaltos e no Rio Grande é planície. Em Santa Catarina ele está embaixo do nível do mar e/ou formam ilhas continentais, como é o caso da Ilha onde fica Florianópolis.

O interessante disso tudo é que no litoral norte gaúcho, as rochas continentais emersas começam exatamente no contato inferior da formação Serra Geral (que é a formação geológica dos basaltos). O motivo pra isso é muito intrigante, pois o basalto é muito resistente, principalmente aqueles de estrutura colunar, mas ao longo de milhares de anos (talvez uns 80), houve um recuo das vertentes da Serra de cerca de 35 a 40 Km em linha reta do atual litoral e a base disso tudo é onde começa a rocha mais resistente...

À primeira vista isto pode parecer contraditório, mas não é, se for visto numa outra escala... Estes derrames aconteceram através das fissuras que romperam com a desfragmentação do continente Gondwana. Isso significa que o que hoje é litoral, nesta época era o centro de um continente. Continente este enorme e que era em seu centro muito seco. As rochas que advêm desta época são arenitos de estratificação cruzada, ou seja, arenitos depositados pelo vento. O centro deste continente era um enorme deserto, maior inclusive que o atual Sahara.

No momento dos primeiros derrames, eles ocorreram sob o solo arenoso deste deserto, chamado pelos Geológos de Botucatu (por que estas rochas ocorrem com grande tipicidade nesta cidade paulista). Este contato “cozinhou” a areia. Ele também atravessou o lençol freático existente na subsuperfície as dunas e as lavas ricas em sílica aumentaram o teor destes minerais onde havia o lençol e a água com a lava e sedimentos deram origem ao Peperito, de grande resistência, então não é de se estranhar que seja o contato o limite da erosão do recuo das vertentes que ocorreram no Terciário (Período de 60 milhões de anos entre o fim do Cretáceo e o Quaternário). O que o litoral tem a ver com isso?

Bem, o escudo riograndense faz uma “curva”para sudoeste próximo à região metropolitana de Porto Alegre. As correntes marinhas que atuam na costa carregaram ao longo do tempo (não muito tempo...) os sedimentos proveniente do continente que desciam para o mar. Muitos destes sedimentos eram de rios muito enérgicos que cavaram os Aparados da Serra, que são os mais impressionantes canyons do Brasil.

Estes sedimentos foram levados ao sul e foram depositados formando a mais impressionante restinga da América do Sul e um grande complexo de sistema de lagoas que tendem ao longo o tempo retilinizar o litoral. Não é à toa, no entanto, que a maior praia do mundo fique no Rio Grande do Sul, a famosa praia do Cassino.

Um interessante estudo sobre o ciclo evolutivo de lagunas, restingas e retificação de litorais foi publicado em 1945 por Alberto Lamego: Ciclo evolutivo das lagunas fluminenses. Boletim do DNPM n° 118. Rio de Janeiro, 1945.

Melhor do que discutir a gênese é poder desfrutar e conhecer este litoral excepcional. Hoje, saindo de Torres, fomos pela rodovia costeira até Osório, onde estrategicamente situa uma das maiores fazendas de energia eólica do país. Em todo este litoral é comum a presença de dunas, o que atesta este ciclo evolutivo. Contribui para isso a ressurgência de uma corrente fria que deixa este litoral mais seco. As dunas seguem o litoral gaúcho, adentrando a grande restinga.

Tivemos o privilégio hoje de conhecer dois lugares fantásticos com dunas e lagoas: A praia da Solidão em Bacupari e o Parque Nacional da Lagoa dos Peixes em Mostardas, local de presença de aves migratórias como o Flamingo.

Este sistema de lagoas, diferente do ciclo de Lamego, são oriundas das transgressões e regressões marinhas que ocorreram em nosso instável Quaternário, quando mudanças climáticas aumentaram e rebaixaram o nível do mar, formando o chamado sistema “barreira – Lagoa” quando uma barreira de areia bloqueia a água do aumento do nível do mar formando lagoas isoladas de rios.

Quase acampamos ao lado dos Flamingos no Parque Nacional da Lagoa dos Peixes, que pra variar é um parque de papel onde tudo é proibido, inclusive acampar... Não que mudamos de decisão para respeitar as políticas demagógicas de natureza intocada, lúdica e contemplativa de nossos órgãos ambientais.

Por conta de um imprevisto (a gasolina estava acabando), resolvemos ir à cidade de Tavares abastecer. Foi quando olhando no GPS vi uma estrada de terra até a Lagoa dos Patos. Por esta estrada de terra de 7 km, chegamos à uma praia com um pouco de grama onde acampamos, em um local muito sossegado e sem ninguém para nos avisar que nossa presença é impactante e a deles não...

Chegamos com o sol quase apagando e vimos uma chuva ameaçar nosso camping perfeito. Por sorte até agora foi só uma ameaça (são 20:11 e já parou!). O cheiro de alho e cebola frita da barraca estão me deixando empolgado com a janta, que é feita dentro da barraca (estou dentro do carro). Só para completar o relato, o céu deu uma limpada e lá fora vejo a lua minguante refletida sobre a lagoa.

Falésia de Torres sobre Basalto e plataforma sobre peperito

Peperito

Duna na Praia da Solidão

Dunas na praia da Solidão

Praia da Solidão - Restinga da Lagoa dos Patos

Lagoa dos Patos em Tavares

Acampamento na Lagoa dos Patos

Usina eólica em Osório

Ponto de ônibus numa terra onde só se dá arroz.

30 de março de 2009

Rumbo al sur...



As postagens deste blog poderão estar atrasadas, pois estou escrevendo durante a viagem, mas nem sempre encontro algum ponto de internet sem fio para manter as notícias atualizadas. Aliás, já que me chamam de garoto enxaqueca, vou fazer jus à fama e reclamar: Como a infraestrutura de turismo econômico no Brasil é desatualizada. Quase impossível achar internet wireless por aí!

Domingo 29 de março de 2009

Rodamos hoje 574 km, saindo de Curitiba e chegando em Torres – RS. O começo da viagem foi muito tranqüila, pois no norte de Santa Catarina a estrada é perfeita. Depois de Florianópolis o bicho começa a pegar. Pista Simples, muitos desvios, obras intermináveis e perigo eminente, quase um caminhão bateu em mim desviando de um sem noção que parou no meio da estrada... Realmente a BR 101, ou briói, como chamam os catarinas, é um desastre.

Chegamos em Torres à noite e fomos direto na região onde concentram-se os campings, longe do centro urbano. Reconheci a rua onde ficava um camping onde eu fiquei há 3 anos atrás, na volta de uma viagem pela Argentina. O camping em questão estava fechado e só havia lá uma opção de salgados quinze reais. Pagar tudo isso pra usar minha própria infraestrutura? Nem a pau...

Na procura de um outro camping mais barato, encontramos outros fechados e na sorte achamos uns Chalés por maravilhosos R$ 8,00. Beleza! Tá certo que o tal Chalé mais parecia uma tapera, mas o preço foi convidativo...

Segunda Feira 30 de Março

Após uma noite sofrida por causa dos pernilongos, o dia amanheceu nebuloso, mas logo abriu um belo e convidativo sol.

Fomos escalar no Parque da Guarita, uma bela praia e um fabuloso monumento geomorfológico. O nome Torres advém das Falésias com basalto de disjunção colunar, que segunda a Eliza é da unidade básica inferior da Formação Serra Geral, e é mesmo, pois deu pra ver os arenitos Botucatu na base e até mesmo conglomerados vulcânicos os Peperitos, que é quando ocorre a interação da lava e o sedimento em ambiente liquido.

Vivo pegando no pé dos esportiveiros que chamam qualquer afloramento rochoso de falésia. Falésia é na verdade quando há um desnível abrupto frente ao mar e o relevo de Torres é de fato uma falésia, com interessante erosão de base por abrasão, formando grutas localmente chamadas de furnas.

Bem, eu teria muito o que falar daquilo que vi no relevo desta região fantástica. Dunas, Falésias, linhas de pedra subsuperficiais sobre solos antigos e até mesmo cactáceas e bromélias xerófitas vivendo e competindo com as “hipomeas” da beira de praia em local onde umidade é superior à 80%. Torres é muito mais que uma bela paisagem cênica, é também uma paisagem de exceção que conta a história da natureza do continente sul-americano...

Começamos o dia reconhecendo as três torres e escalamos primeira a Torre Sul, com a Via (?) de 6 sup e a (?2) 6 grau. Vias lindas, altas e fáceis. Na torre sul havia no croquis outras vias, algumas marcadas como sendo em móvel. Entretanto fiquei muito ressabiado em entrar, pois de baixo não dá pra ver a parada e pra cima há muito caraguatá (bromélia) de forma que fica difícil uma fuga da parede.

Almoçamos um lanche (bem caro, a cidade é muito turística) e voltamos pra praia, quer dizer, pra rocha... Desta vez pra torre norte, ou torre do Farol, com vias mais curtas e mais difíceis. Entrei pra começar em um 5 sup que eu já havia feito na primeira vez que vim pra cá em 2006, na volta de uma viagem que eu e o Maximo fizemos pela Argentina (e que editamos aquele famoso vídeo “Star Wars”).

Logo quando estava entrando na via apareceu um escalador, o Ricardo, que é o único ativo da cidade. Ele nos deu umas dicas e montou um top na via Solião do Farol um 7b de entalamento em teto indescritivelmente animal! (No croquis diz ser um 8a)

Após eu ter entrado na via, foi a vez da Eliza, que mandou muitíssimo bem, com apenas uma queda. Depois dessa, o Ricardo ficou pilhado em entrar na via mais tradicional do setor, a “Master Blaster”, um 7c de posicionamento maravilhoso. Ele guiou a via de deixou as costuras para eu entrar em Pink Point. Fiz a via com queda e dando duas seguradas na costura, pois de fato, é uma via de equilíbrio, leia-se, equilíbrio na hora de costurar... Mas beleza, de primeira sempre fazemos umas jaguaríces.

Torres é um lugar espetacular para a escalada esportiva. Pode adicionar à seu potencial o fato de lá ter muitas fendas e via em móvel. Entretanto é preciso ter cuidado, pois a maresia lá é o bicho e um grampo dura apenas 6 meses! O ideal é que as vias sejam protegidas com parabolt e chapeleta de aço inox. Há muitas linhas a serem conquistadas e que dariam vias lindas. Só que é caro abrir vias de 25 metros e extensão com proteções deste tipo, então o potencial da cidade ainda é pouco explorado. Nas vias em móvel é preciso ter informação sobre o estado da parada na cabeça da via. Não adiante você saber escalar em móvel e não ter por onde descer. Fez falta aqui em Torres um binóculo igual àquele que o Belezinha usa pra ficar olhando as agarras em campeonato. Aqui seria utilizado pra procurar as proteções de rapel.

Daqui estamos indo para a região da restinga da Lagoa dos Patos. Quando possível, mandarei notícicas...

Abs.
A "Guarita"em Torres, contato entre o arenito Botucatu e o Basalto da Fm. Serra Geral.

Linhas de Pedra...

Eu escalando uma das vias...

Uma das vias na torres sul.

Karla

Altura da Falésia.

Eliza de segundo

Karla

Passagem de um teto

Eliza na Solião do Farol

Já viu isso antes?

28 de março de 2009

Indo pro Uruguay

Depois de ter dado um gás na minha dissertação e ter ficado sem ter tempo pra atualizar este blog, estarei indo aproveitar uma merercida viagem, de estudos!

Estou indo a Montevideo participar do EGAL. Encontro de Geográfos da América Latina. Já participei deste evento uma vez, quando foi em São Paulo em 2005 e agora, aproveitando que será bem perto lá vou eu, de carro, é claro!

O roteiro de ida é beira mar. Sairemos amanha de Curitiba e pela BR 101, iremos até Torres, no Rio Grande do Sul. De lá, iremos até Osório e seguiremos pela 101, passando pela Restinga da Lagoa dos Patos, um lugar que eu sempre quis conhecer.

Atravassarei a fronteira via Chui e seguirei pelo litoral até Montevideo.

Estarei acompanhado nesta viagem pela Karla, Eliza e Mayumi. Quando puder estarei postando informações e fotos.

Até breve!

16 de março de 2009

Video do campeonato catarinense

Os negócios estão indo bem e já tenho alguns clientes. O Hilton pediu 200 litros, a Janine diz que vai levar pros Jogos Mundiais em Taiwan, o Maximo vai tomar um mate com ele e o Parofes veio na onda. A água milagrosa de Campo Alegre está fazendo Fama!

Não é por menos. Este video eu comprovo a eficácia do meu produto. Estrelando Andreas, Jürgen e a galera de Santa Catarina.


Campeonato catarinense de escalada from betojoly on Vimeo.

Ps. Ainda estou estudando o preço final da Água de Campo Alegre, mas como já tive pedido de pessoas ilustres, acho que o preço será um pouco caro no começo. Aguardem!